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    Como ficar doente

    ciência, saúde, saúde pública Nenhum Comentário

    Ótima matéria de Ivan Lessa da BBC Brasil. Segue na íntegra abaixo

    Em primeiro lugar, há que se escolher uma doença pouco complicada. Uma doencinha, digamos. Não vamos complicar muito as coisas. Pode ser muito bonito e encher a boca, mas um diplococus assemiático ou uma renhite gastrointestinal é coisa pra gente grande e, pé de pato, mangalô três vezes, geralmente acabam em besteira da grossa.

    Sejamos docemente comuns. Fiquemos numa gripe. Não resfriado, que esse se tira de letra. Dizem. Gripe. Gripe biguana. Daquelas de derrubar. Combinado assim?

    Então vamos à segunda parte da questão.

    Onde ficar doente? Onde ser derrubado por uma baita gripe? Em qualquer parte daquele que já foi chamado de Terceiro Mundo e, agora que tirou o mestrado virou Mundo em Desenvolvimento, é melhor não.

    Quer dizer, há médicos de escola e escolaridade superior, mas mesmo assim eles ainda não conseguiram um remédio garantido para o gripe. Ou sequer o resfriado. Receitam aspirina, ou paracetamol (só para mostrarem que se pegaram um diploma no Mundo Desenvolvido), muito líquido e descansar. Ficar de molho, em sumo.

    Sim, sim, há vacinas. Não conheci uma única pessoa, com qualquer idade, broto ou provecto, que uma vez vacinada tenha chegado até os amigos e, com um sorriso idiota na carona, tenha dito, “Eu estou completando esta semana 6 anos sem gripe ou resfriado”. Filho da mãe. Como se fossem 6 anos sem botar um cigarrinho na boca, cheirar uma fileira ou se injetar com heroína. As vacinas antigripais são uma lenda urbana propagada pelos laboratórios. Para variar. Marcam um dia da semana, você vai até o consultório, nem vê o médico, e é vacinado por uma enfermeira que invariavelmente acrescenta depois da picadinha, “Tá vendo? Não doeu nada.”

    Minha senhora, por mim poderia doer pra burro, contanto que funcionasse. Que eu não fosse obrigado a ficar cuidando de não pegar um vento encanado ou me molhar na chuva.

    Resumindo: não ficar gripado na República Democrática do Congo, mesmo em semana sem genocídio. Gripe é para a Zona Sul carioca até, no máximo, 1965. Ou então Nova York, Roma, Paris e Londres nos dias que saudavelmente (canalhas) correm. Em qualquer cidade onde Chanel tenha um estabelecimento comercial devidamente estabelecido e concorrido. Não vai adiantar nada para a gripe, mas não deixa de ser reconfortante saber que, em algum ponto da cidade, há uma loja da Chanel.

    Sejamos francos. Ficar em casa 3 ou 4 dias seguidos, sozinho, com a gata te estranhando, é sacal. Duro mesmo. Os olhos lacrimejam, os ouvidos se fazem surdos ao som gordo em altíssima fidelidade no aparelho novo, onde não há CD de jazz com matriz recuperada e digitalizada que diga alguma coisa.

    Lá está, numa tarde de segunda ou terça-feira, na sala, a televisão em LCD, alta definição, 37″, som surround, mostrando jovens que um dia serão “celebridades” falam inanidades, com voz de débil mental, para crianças não muito ladinas também. Impossível ver a reserva de coisas gravadas. É uma afronta aos olhos e à sensibilidade. Livro? Nem pensar. A programação é diferente.

    Tossir o mais baixo possível, mesmo que seja o tempo todo, para não assustar a gata, que, como você, já não é lá tão jovem assim. Desistir de ir ensopando lenços e – assumamos nossa condição — pegar um lençol de uma vez. Não conferir em hipótese alguma se a febre lhe faz companhia. Claro que você está febril. Eu falei que era gripe e não resfriado. Melhor, no entanto, não piorar as coisas. Há que se tentar fingir-se de forte.

    Só mais um copinho de suco de laranja. Não falam que fruta cítrica é o melhor remédio para essas coisas? Então… Seguido desse ótimo recém-descoberto de lixía. Não esquecendo do de papaia. Pena que o de uva (Welch’s, claro) tenha acabado.

    Ao menos, na terça-feira fez um solzinho e a temperatura estourou lá pelos 14 graus dos nossos. Segunda foi uma barra. Gripe em casa e chuva lá fora, essa combinação letal nem o Tito Madi resolvia.

    Não lutar contra a vontade de se esparramar no sofá. Depois de uma boa chuveirada, roupinha limpa (nunca usar pijama quando gripado), passar a colônia Ach. Brito portuguesa em doses cavalares pelo corpo todo. Você pode não sentir o cheiro. Mas ele está lá. Esperando – mais: estimando – as suas melhoras. Como Chanel.

    Pode capotar descansado entre 4 e 5 da tarde de um dia de semana. Afinal, você está gripado. Por alguns dias, com sorte horas, o mundo girou em torno de você. Embora ninguém tenha visto ou ligado e apenas você sentiu o delírio. Só pode ter sido o raio da febre.

    Publicado por Wagner Alves @ 13:49

    Tags: qualidade de vida

   

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