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    Check-up faz mal ao SUS

    Sem categoria Nenhum Comentário

    Meses de dezembro a março: esse é o grande período de concentração de pessoas em consultórios e clínicas de saúde. As pessoas aproveitam o seu tempo livre nas férias para realizar o que chamam de check-up, terminologia americana que fora utilizada nos anos 50 num dos programas espaciais ianque, em que os astronautas tinham de se submeter a uma bateria de exames para evitar complicações durante o lançamento e na sua estadia fora dos confins do nosso planeta.

    Nos anos 80, a idéia dos check-ups ganha força através do lobby realizado pelas empresas da saúde. Vislumbraram na época a grande oportunidade de fazer mercado com a necessidade de saúde da população e passaram a trabalhar então sob duas frentes: no desenvolvimento de tecnologias diagnósticas cada vez mais especializadas e menos agressivas e invasivas, e do outro lado, a difundir a necessidade de realização de exames periodicamente, como estratégia de prevenção e promoção da saúde, sobretudo na classe médica e nos serviços privados de saúde.

    Como aqui no Brasil pouco se cria e muito se copia, e some a isso o encantamento da população às tendências dos grandes centros mundiais, nosso país não poderia ficar de fora dessa onda mercantilista da saúde no cenário mundial. Eis que os nossos compraram e também difundiram a idéia da realização dos check-ups como uma das estratégias mais interessantes para realizar prevenção em saúde, claramente uma visão do modelo médico privatista.

    Os brasileiros, indepente da sua classe social e da acessibilidade que possuem a bens e serviços, passam a frequentar clínicas e unidades de saúde direcionando e até exigindo dos profissionais a bateria de exames que dá corpo aos check-ups. Algumas pessoas passaram inclusive a rotular negativamente profissionais médicos que, ao final da consulta, não lhes forneciam as tão desejadas “guias para realização de exames”.

    Fala-se até em check-ups básicos, completos e até personalizados.

    Para uns, mais abastados e com disponibilidade de planos de saúde de boas coberturas, a realização dos exames flui de forma simples e provavelmente sanará as duvidas até então instaladas quanto ao atual quadro de saúde desses indivíduos. Porém, para outros, que representam a maior parcela da população e não possuem recursos e acesso a serviços com tecnoligias de ponta, terminam por cobrar do Sistema Único de Saúde uma resposta semelhante a vivida nos serviços privados, posturas totalmente avessas à logica do sistema e a forma como ele é pensado, gerido e executado.

    Os prórpios profissionais, por vezes descontentes com a falta de suporte e de capacidade instalada para execução de suas atividades, por vezes boicotam o sistema incluindo a lógica dos check-ups numa rede em que se preconiza a adscrição de clientela, conhecimento do território e atuação in loco, correspondente às necessidades de saúde conforme elas se apresentam. Isso está muito claro e bem formatado nos objetivos do programa de saúde da família, por exemplo. O grande equívoco é a população continuar sem entender como essa rede funciona e manter profissionais que alimentam uma lógica organizacional paralela e concorrente aos princípios do SUS.

    Dessa forma, o SUS de qualque lugar não consegue dar conta às demandas. São desferidas solicitações de exames indiscriminadamente, tudo porque “usuário satisfeito é aquele que sai com sual solicitação de exame nas mãos”. Para queixas de dores de cabeça, tomografias, dores na coluna, ressonâncias, queixas de dores articulares, raios-x, dores estomacais, endoscopias e quanto mais complexo o procedimento, melhor. Por vezes, medidas sanitárias e de educação em saúde são suficientes e mais direcionadas para resolução de problemas dos indivíduos de várias comunidades, mas…

    É duro ver pessoas carentes terem que se expor e até se humilhar, procurando meios os mais diversos possíveis para realização de exames e procedimentos que atendem à lógica dos check-ups, mas não levam em conta o social e as prioridades dos indivíduos e de uma população.
    Por isso que um dos princípios do SUS é a equidade e é realmente necessário tratar de forma desigual os desiguais, direcionando mais atenção e suporte para aqueles que têm mais necessidades.

    Tenho a convicção de que fazer check-up é ótimo. A possibilidade de se monitorar ou de descobrir alguma patologia ainda em estágio inicial traz alento e conforto àqueles que têm essa possibilidade. Mas, também tenho a certeza que essa é uma linha de pensamento que vai de encontro às prerrogativas do SUS e não traz possibilidade de acesso a todos.

    Sob pena de não ver seus programas sucumbirem diante dessa lógica de mercado, aqueles que fazem o Sistema Único de Saúde precisam oferecer serviços mais qualificados aos seus usuários, necessita que estes acreditem no potencial de suas ações e que invistam nos profissionais, para ao inves de serem concorrentes, serem parceiros dessa proposta. Caso contrário, prevalecerá a lógica do mercado, prevalecerá a lógica dos check-ups nos serviços públicos de saúde e constituirá sempre uma grande barreira a consolidação do SUS.

    Publicado por Wagner Alves @ 23:36

    Tags: serviços de saúde, sistema de saúde, SUS

  • 13jan

    Precisamos salvar vidas: desfibriladores já!!!

    emergência 1 Comment

    Vejam, não é a toa que óbitos por causa circulatória/cardíaca lideram o ranking de causa mortis no país. Tá certo que a existência por si só de desfibriladores em locais de grandes concentrações populacionais não garante a sobrevida das pessoas, mas com certeza eleva em muito as chances de salvar pessoas de mortes súbitas decorrentes de complicações cardíacas, arritmias e paradas cardíacas.

    Segundo a Sociedade de Cardiologia e o cardiologista Agnaldo Pispico, “em média, 820 pessoas têm morte súbita a cada dia no Brasil” e “o acesso público ao desfibrilador pode fazer com que a sobrevida nesses casos suba de menos de 2% para 40% a 45%, em média.”.

    Mesmo após a morte do jogador Serginho do São Caetano em 2004 no jogo contra o São Paulo, em que se acendeu toda uma discussão sobre a falta de preparo no trato de vítimas de maus súbitos como aquele e da inexistência de equipamentos básicos (até a falta de ambulância nos locais dos jogos!), até hoje continuamos sem nada que legisle e garanta de forma legal a uniformidade de adequação desses espaços com equipamentos capazes de salvar vidas.

    Alguns Estados e cidades, por conta própria e iniciativa dos legisladores locais, caso de São Paulo e Paraná, já avançaram na formatação de instrumentos que garantam a existência de desfibriladores / DEA´s (desfibriladores externos automáticos) em locais de grande contingente de pessoas, caso de caxas de show, estádios de futebol, entre outros espaços. Porém, ainda sim instituições e organismos teimam em desrespeitar as normas e não disponibilizam o referido equipamento.

    São equipamentos caros, que giram em valores superiores a R$ 5.000,00, mas que apresentam no seu custo-benefício uma eficácia direciona qualquer esforço no sentido de adquirí-lo, seja para salvar vidas e atender as determinações que estão postas.

    Nesse sentido, o governo brasileiro precisa ser mais incisivo e criar alternativas para que facilite a aquisição desses equipamentos e um custo muito menor e pressionar os legisladores para que tracem condutas que sejam acompanhadas e obedecidas pelos demais Estados e municípios da federação, e não apenas esperar que essa seja iniciativa da consciência de cada governante em seus espaços.

    É preciso difundir práticas e técnicas básicas de suporte básico de vida e de utilização de DEA´s na população brasileira. Com isso, haverá muito mais possibilidade de salvar pessoas quando tivermos mais pessoas conscientes do seu papel e com conhecimento suficiente para fazer o básico até a chegada de serviços de maior complexidade.

    Publicado por Wagner Alves @ 17:04

  • 08jan

    Quando a "patente" precede a pessoa

    saúde Nenhum Comentário

    No mundo de hoje, especialmente no ramo da saúde e mais especificamente no campo da saúde pública, algumas pessoas com o intuito de ganhar notoriedade, deixam de ser elas mesmas, perdem as suas identidades para serem amigos, cumpadres ou conhecidos de outros que são detentores de algum tipo de poder ou possuem algum destaque na sociedade.

    - Ei, você sabe quem sou eu? eu sou amigo primo-irmão do prefeito de Cabrobó de Dentro!!!
    - Boa tarde, meu nome é Givanildo e sou parente do mega-empresário Dr. Wilson Carvalhal!!
    - Quem é o Sr? –> – Eu sou policial!!! –> O nome do Sr. é “policial?
    - Você sabe com quem está falando???

    A sociedade de forma geral tem cultivado a perspectiva de que a imposição de respeito está intimamente atrelada ao que a pessoa é e/ou representa. Caso não possua uma formação de destaque ou tampouco represente qualquer instituição de credibilidade no mercado, essas pessoas passsam a ser nada sob esses tortuosos olhares. Dessa situação que surgem os maltratos, os abusos de poder, a banalização e menosprezo de outros sujeitos que não fazem parte dessa “rede social”.

    A busca por “ser alguém” e pelos holofotes da grandeza chega a motivar pessoas a utilizarem dos artifícos mais rasteiros possíveis, sobretudo com colegas de trabalho, com o intuito de galgar cargos e funções reconhecidamente importantes. Não medem esforços e esquecem qualquer resquício de ética e moral que por ventura ainda possa existir.

    Essas foram situações que pude vivenciar de forma mais aguda quando trabalhei na gestão de serviços de saúde de alguns municípios. A avidez e a ganância com que as pessoas lutam por esses espaços é algo fora do normal e sempre apresentam-se trazendo colado aos seus nomes o cargo que ora ocupam, tentativas implicitas de deixar claro que são e representam alguma coisa, portanto, “são alguém”!

    E tem mais!! É um terrível engano achar que as pessoas indicadas são a melhor força de trabalho em função da confiança que se deposita ou pelo “puxa-saquismo” que realizam. Essas são na verdade as pessoas que darão maior dor de cabeça aos gestores. Tentarão a todo momento gozar de um suposto status que acham passar a desfrutar em função do poder da indicação que carregam. Não respeitam normas, regras, não cumprem pactos, não executam seus trabalhos e ainda são intocáveis. O perfil dessas pessoas é exatamente daquelas que, fracas tecnicamente e impossibilitadas de fazer frente a outros profissionais num justo processo seletivo, vão pelo caminho da “camaradagem” e assumem as “patentes” tão desejadas.

    Faço esse registro porque acho o momento crucial. Estamos no início das gestões das prefeituras Brasil afora, período em que os quadros de pessoal estão sendo recompostos e novas equipes de trabalho estão sendo formadas. Em especial nas Secretarias de Saúde, hoje tão politicamente cobiçadas dado aos montantes financeiros e de pessoal que gerem, essas lutas hão de se acirrar, pois quem já está não quer “deixar de ser alguém” e quem estar fora quer entrar.

    Os gestores municipais, prefeitos e secretarios devem nesse momento deixar vaidades à margem da escolha de seus pares e levar em consideração o compromisso, a simplicidade, a capacidade técnica e a força de trabalho dessas pessoas que passarão a construir e (re)organizar a saúde dos municípios do Brasil. Esqueçam os figurões e os emblemas!

    Publicado por Wagner Alves @ 13:03

    Tags: poder

   

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