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  • Essa vou escrever em consideração a um amigo que recebeu uma proposta tentadora: ser Secretário de Saúde de um município.

    Que situação desafiadora hein! Logo quando soube, passou um filme na minha cabeça fruto de vivências anteriores e fiquei a pensar se era essa realmente uma boa proposta.

    Vejam, ser Secretario de Saúde de um município, antes de mais nada, faz bem ao ego. E não me venham com essa de “poço de humildade” e dizer que não é bem assim. Um convite para assumir uma pasta tão importante num município é a certeza de que a pessoa está sendo apreciada pelas suas qualidades, pelos seus potenciais, pelo seu senso de responsabilidade e seriedade ante o trabalho. Vamos combinar que em alguns municípios a coisa não se desenrola dessa forma, mas “vá lá”, ninguém nos dias de hoje quer colocar um Zé Ninguém para chefiar o setor do município, que junto com a educação, é visto como a “galinha dos ovos de ouro”.

    Sim, a saúde é um dos setores mais importantes de uma administração municipal. Lida com um sem número de pessoas, movimenta montantes de recursos materiais e financeiros que vão pela casa dos sete dígitos e, acima de tudo, lida diretamente com vidas. A saúde não pode dar-se ao luxo de descansar. Seus trabalhadores operam 24 horas por dia a garantir que bons serviços sejam prestados à grande massa populacional dependente dos recursos do SUS.

    Destaco ainda que estar a frente de uma secretaria como essa, traz ainda mais vislumbre pela possibilidade de mudança, transformação. Sabe aquelas idéias miraculosas que temos no tempo de estudantes, a simplicidade como vemos soluções já como operários do sistema ou daquelas críticas que formulávamos quando víamos que a administração dos serviços podia ser diferente? Pois é, agora mais do que nunca, enquanto representante da pasta, elas deixam de ser abstratas. Ganham cor, forma, materializam-se, tornam-se agora palpáveis e passam a incomodar muito mais como gestores. É como se dizem por aí: virar vidraça!

    Ser gestor da saúde também é ter poder, outra característica inegável e porque não dizer a mais importante delas. Através dessa força, pode-se tirar do campo da imaginação tudo aquilo que antes figurava apenas como uma simples idéia para gerir esse poderoso sistema. A sua aplicação é que determinará como as relações de trabalho acontecerão e a ampliação dessa força está intimamente atrelada à capacidade de articulação daquele que se arvorou ao cargo. Diria ainda que é a mais tentadora das “ferramentas” que vêm agregadas e que muitas vezes ofuscam e desvirtuam. Ela com certeza pode modificar o caráter das pessoas. Tão oportuna é nesse momento a máxima de que para se conhecer verdadeiramente uma pessoa basta que lhe dêem a força, o poder.

    São essas apenas algumas características que quando bem direcionadas, podem fazer maravilhas e transformar para melhor o cenário de saúde de um município.

    Mas, nem tudo são maravilhas sempre!

    Infelizmente as boas administrações municipais das secretarias de saúde são a exceção, e não a regra. Nem sempre as melhores pessoas são selecionadas para assumir esses cargos e por vezes são obscuros esses processos de escolha. Muitos interesses particulares estão em jogo nesse momento. Quem nos dera que o critério de seleção dos secretários de saúde e dos demais cargos da estrutura fossem todos realizados com grande peso para a bagagem técnica do profissional e sua capacidade de trabalho.

    As políticas partidárias infectaram esses sistemas de escolha para o qual não conseguimos remédios. Não fazem distinção do que é partidário e do que é político. Emperram aspectos técnicos ou nem sequer os consideram, desde que os interesses do minoritário grupo sejam atendidos, quase sempre em detrimento dos interesses de toda uma população.

    Pior ainda é a situação quando são convencidas pessoas de caráter ilibado, éticas e de grande capacidade, para assumir o cargo de secretário de saúde num local onde co-existem pessoas ruins de trabalho, com interesses particulares e até contrários as novas propostas que chegam.

    Boas pessoas não conseguem conviver num cenário tão tenebroso. O Brasil a cada dia dá mais e mais indícios que as práticas ilícitas já convivem num ambiente de normalidade entre as pessoas. Tornou-se habitual o roubo, a libertinagem, a malversação do patrimônio público e a impunidade perante os casos que cada dia mais assombram aqueles que procuram seguir suas vidas sob princípios morais, éticos e de honestidade. É tão esquisita e esdrúxula a situação que confunde a cabeça das pessoas, sobretudo daqueles que estão em formação do seu caráter.

    Além disso, os desafios deixam de ser enfrentados no espaço do trabalho e invadem o campo pessoal. Passam a afetar justamente os princípios que essas “boas pessoas” procuram preservar e podem criar rótulos, estereótipos ruins e que balançam a estrutura do ser humano. Alguns, para tentar conseguir avanços, são prostituídos. Terminam cedendo a pressões, optam pela conivência com ações que ferem a moral e os bons costumes. E olhe, o fato de apenas fechar os olhos ao que se passa, também configura uma conivência, configura, portanto, cumplicidade.

    São realmente imensas as tentações. Uns terminam cedendo aos maus vícios e práticas do sistema. Outros, por não suportarem tão calamitosa situação, retiram o seu time de campo e vêem escorrer como areia entre os dedos a grande chance de realizar mudanças positivas no cenário de saúde de sua localidade.

    Mas, eu acredito! Há luz no fim do túnel.

    Caro amigo, pode até parecer que assumir uma secretaria de saúde apresente mais contras do que prós. Mas é chegada a hora de contaminar as pessoas com as boas práticas, com os bons valores. As oportunidades cada dia são menores. Às vezes, os sacrifícios são muito grandes e implicam abdicar de muitas coisas interessantes e convenientes.

    Mas é preciso que alguém faça a diferença. É preciso criar referência, boas referências. Até quando aceitaremos gestores que nada fazem e só querem enriquecer aos custos do público ou utilizar a máquina como o velho trampolim para galgar vôos políticos maiores? Não agüento mais ouvir que “Fulano rouba, mas faz!”.

    Caso realmente aceite a proposta, vá com coragem e força para mudar. Não deixe abater-se ante as situações difíceis. Imponha seu ritmo de trabalho, envolva pessoas, conquiste espaço, seja persuasivo e procure apontar sempre boas alternativas e soluções para problemas que parecem invencíveis.

    Seja político e saiba distinguir os interesses. Defenda as causas da coletividade e de forma técnica, não realize trabalhos por caprichos. Não se preocupe em aparecer. Só deixa legado aqueles que realmente constroem alguma coisa e provocam grandes transformações.

    Sinta-se importante sim, mas não se esqueça de ser humilde. Trate as pessoas de forma horizontal, igual. O cargo é passageiro, mas as pessoas ficam. Não esqueça que se aprende no dia-a-dia e que o mundo dá muitas voltas.

    Falo aqui como uma pessoa que já viu algumas coisas por aí. Mas, acima de tudo, tenho certeza que transmito o desejo de tantas outras pessoas que também querem ver as coisas darem certo, seja onde for. Queremos pessoas que vistam a camisa e que defendam o SUS.

    Tenho certeza de que outros muito mais experientes podem fazer melhores relatos de dar algumas dicas. Como sempre, o espaço está aberto, façam seus comentários.

    Boa sorte e força! Estamos juntos.

    Ahhh… e se ficaram curiosos com relação a quem é o “amigo”, não se preocupem, vão ouvir falar dele, vão ouvir ele.

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  • Sem preconceitos, mas depois de ver essa imagem, dá pra tentar fazer um 2010 diferente né.

    gordura_mulher

    Peguei no Brogui apud Chongas

  • bebequercolinho

    Para começar o ano, nada melhor que refletir sobre as práticas cotidianas. Nesta época quase todos estão cheios de promessas, objetivos e planos que geralmente têm uma finalidade: tornar as pessoas e/ou as relações (pessoais e profissionais) melhores.

    Nós, profissionais de saúde, também fazemos isso. O interessante é que, no que se refere ao trabalho, as conversas entre colegas muitas vezes se repetem no seguinte ponto: sempre lembramos que a relação com o paciente e com os parceiros de equipe pode e deve ser melhorada. Mas o que fazemos durante o ano para alcançar a tão aclamada humanização da assistência?

    Em dezembro passado, participei do Encontro Macrorregional de Humanização, realizado pelo pessoal do HumanizaSUS / Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, na cidade de Jacobina. Nele pudemos discutir diversos aspectos relacionados ao assunto e ficou bastante claro que cada profissional de saúde, mesmo com todas as dificuldades do cotidiano, é capaz de mudar um pouco a sua realidade, desde que esteja atento às suas ações. É possível respeitar mais, ser mais tolerante, mais gente. Às vezes nos perdemos em meio às cobranças dos gestores, tratamos pacientes como procedimentos ou convertemos seres humanos em números. Mas quando esses erros passam a ser a regra, algo está inadequado.

    Passamos 12 meses do ano correndo de olho no relógio, preocupados com a famigerada produtividade, prazos e com o alcance das metas. Aos poucos ganhamos distância do motivo real de tudo aquilo que praticamos: o ser humano. A cobertura vacinal não é apenas um percentual. Aqueles números representam pessoas que estão protegidas de doenças imunopreveníveis. Crianças, adultos e idosos de quem estamos cuidando. Nossas ideias, relatórios, técnicas não devem nascer para o alcance de um número. Devem existir para alcançar pessoas.

    Parece bobagem, redundância, mas não é. Este exercício de “reconstrução” dos conceitos deve ser uma prática cotidiana. Talvez assim possamos resgatar parte da motivação perdida ao longo da história. Chamar o indivíduo pelo nome, escutá-lo um pouco mais em cada consulta, apertar sua mão ao se despedir… Será preciso Pós-Graduação ou alta tecnologia para isso?

    “Por humanização entendemos a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam essa política são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a co-responsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários, a construção de redes de cooperação e a participação coletiva no processo de gestão.” (BRASIL, 2008)

    Lendo esse excerto posso suspeitar que muitos profissionais acabam reproduzindo o tratamento que recebem. É perceptível que, em geral, o trabalhador não está sendo cuidado da forma adequada: Más condições de trabalho, políticas de Saúde do Trabalhador incipientes ou não implementadas e vínculos empregatícios precários são alguns pontos que contribuem para sua insatisfação. O que dizer do Prefeito que demitiu Enfermeiras que se recusaram a dançar e rebolar sobre um trio elétrico? Não quero dizer que isto autorize o profissional a desrespeitar o paciente. Mas rompe o vínculo solidário e facilita a queda na qualidade da assistência.

    Sendo assim, fica clara a complexidade da questão, já que envolve mudanças de práticas em diversos níveis. Mas é preciso agir. Trago todos à reflexão:

    O que cada um tem feito em seu microespaço para humanizar a assistência e as relações de trabalho? Será que mudamos nossa postura em relação ao que fazíamos em janeiro do ano passado? Pensemos.

    Assim, desejo que em 2010 a nossa ação faça muitas coisas evoluírem. Que tenhamos sempre em mente o nosso compromisso com as pessoas e, consequentemente, possamos ser humanos novamente.

    humaniz

    Referência

    BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. HumanizaSUS: Documento base para gestores e trabalhadores do SUS / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. 4. ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2008. 72 p.: il. color. (Série B. Textos Básicos de Saúde)

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