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    Cenas do cotidiano (03): Grávida, eu?

    Cotidiano

    Certo dia fui solicitada por dona Esperança para ajudá-la a resolver sua situação de saúde. Após biópsia de nódulo de tireóide veio a fatídica notícia de Câncer. Consulta com oncologista e exames de laboratório realizados, uma lista de exames especializados para estadiamento do tumor em mãos.

    Tudo agendado (com a demora de sempre mesmo com a prioridade para o agendamento) chega o grande dia do último exame a ser feito: a Cintilografia Óssea. Esse exame pode avaliar, de uma única vez, todo o sistema esquelético.

    Existem várias indicações para o exame, dentre elas o estadiamento de câncer, demonstrando metástase óssea antes de serem evidenciadas em estudo radiológico. Não é necessário nenhum preparo específico anterior ao exame. Ele é contra indicado apenas para gestantes ou mulheres que estejam amamentando.

    Ciente do procedimento e ansiosa pela espera do tão importante dia, dona Esperança chega à clínica com os outros exames realizados e apresenta-os à recepcionista seguindo o fluxo do local. De repente:

    RECEPCIONISTA: Senhora, está faltando o BHCG. Sem ele, não pode realizar o exame! (BHCG é um exame para diagnóstico de gravidez)

    DONA ESPERANÇA (sem entender a necessidade do exame): Mas por quê? Grávida, eu? Impossível!

    RECEPCIONISTA: Porque é obrigatório realizar esse exame, senhora!  Grávidas são proibidas de fazer, então o BHCG é obrigatório para descartar qualquer possibilidade.

    Depois de muita discussão e nenhum entendimento, Esperança vai em busca do laboratório. Chegando lá, mais uma surpresa: o SUS não aceitou cobrir o exame por falta de justificativa para a solicitação. Indignação geral. Ela então decidiu pagar o bendito exame. Mas como? Sem dinheiro, recorre à equipe do PSF e cada funcionário dá sua contribuição. O laboratório mesmo sem entender aceita realizar o exame. Dona Esperança retorna à clínica depois de dois dias com o BHCG feito e resultado negativo (lógico). Agora, terá que aguardar nova vaga para a cintilografia, sem previsão de data. Dona Esperança, 79 anos, volta para casa na esperança de dias melhores (dia de fazer a cintilografia, de mostrar o resultado para o especialista e iniciar o tratamento que tem direito).   

    Esperança é nome fictício, dado a uma mulher, idosa, residente em um bairro de periferia, sofrida com a vida de restrições, viúva há 10 anos, histerectomizada, descrente com o sistema, mas como o próprio nome, espera otimista e com confiança (em Deus) de que um dia tudo vai dar certo!

    Publicado por Priscilla Sousa @ 14:23

    Tags: cintilografia óssea, Cotidiano, Envelhecimento, saúde

11 Respostas

WP_Cloudy
  • Wagner Disse:
    16 de maio de 2010 às 19:42

    AÊÊÊÊÊÊÊÊÊÊ^… saiu! rsrs. Boa história. Quais serão as outras. Divirtam-se

  • Michelle Disse:
    16 de maio de 2010 às 22:40

    Realmente a indignação só cresce acerca do desempenho do Sistema Unico de Saude, onde o desrespeito a cada dia se torna mais evidente!
    Cilla, parabens. Adorei o post…
    Aguardo por mais!

    Beijos

  • André. Disse:
    16 de maio de 2010 às 23:29

    Bom, o fluxograma de qualquer serviço deveria ser usado para facilitar a nossa vida, mas nem sempre isso acontece. Na atual situação dos serviços de saúde (pelo menos onde eu moro), a Dona Esperança deveria se chamar Dona Sorte, porque fé o brasileiro tem até demais, falta um pouquinho (ou muito) de menos má sorte, para que a metade do fluxo não se confudisse com o início (risos). O problema é o fluxo ou são as pessoas que tentam fazê-lo funcionar? Abraço! P.s: Adorei o post, Enfermeira! hehe

  • Wagner Disse:
    17 de maio de 2010 às 8:19

    Agora falando sério (rsrs): o cenário demonstra como as pessoas estão cada dia mais perdendo o contato e a sensibilidade para com o outro, para com os usuários dos nossos serviços públicos. As práticas tornam-se cada dia mais mecânicas, robotizadas e burocratizadas ao ponto das pessoas não mais conseguirem raciocinar e/ou flexibilizar as normações conforme elas se apresentam.
    Espero que essa falta de acolhimento ao cidadão e perda da capacidade de empatia das pessoas (pelo menos daquelas que ainda fizeram o exercício de se colocar no lugar do outro) não as tornem “burras”, elementos apenas executores de um sistema que sempre será falho, dado a velocidade das constantes mudanças e nossa perene necessidade de adaptação a esse novo mundo. Cabeças pensantes, onde estão vocês?
    Ah…. e o Dono Esperança, será que é porque é a última que morre??? (Pri, vc sabe né, tinha que fazer essa piadinha rsrs)

  • Janaína Disse:
    17 de maio de 2010 às 11:58

    Bem,
    mesmo já tenho elogiado o texto ela faz questão do comentário formal.
    Então, só tenho a dizer que o texto está ótimo; com cada coisa na sua dose certa (tanto a crítica quanto a pitada de humor) e que eu estou esperando pelos próximos.
    Beijomeliga, Pri.

  • FRANCINHA Disse:
    18 de maio de 2010 às 22:40

    Fala sério! isso aconteceu?
    Esse fato me trás muita indignação.A minha equie de USF fez um curso ou reciclagem que teve o nome de acolhimento, foi ótimo aprendi sobre os principios do SUS.
    Integralidade-É a garantia de atenção à saúde a todo e qualquer cidadão
    Equidade-É a garantia de que todo cidadão é igual perante o SUS
    Integralidade-o homem é um ser integral e deve ser atendido por um sistema integrado.
    Acolhimento e resolutividade é o que as pessoas buscam encontrar no atendimento público mas, ainda existem muitos funcionários que nem se quer olham nos olhos, nem se quer dá um não com humanidade.
    Qual foi a garantia que Dona Esperança teve? Penso que foi a de continuar esperando sem ter certeza da solução do seu problema. Qual foi a integralidade do sistema? Nenhum. E sabe-se lá qual será o fim de Dona Esperança. Gente vamos nos colocar no lugar do outro.
    Todo cidadão inclusive Dona Esperança tem o direito de acesso a todos os serviços de saúde, seja público ou contratado.Que a sua esperança Dona Esperança seja a última a morrer

  • Alexandro Gesner Disse:
    22 de maio de 2010 às 14:46

    Boa estrei, Priscilla.
    Mais uma portunidade para refletirmos sobre a aplicabilidade dos protocolos nos serviços e de percebermos até que pontos somos meros executores de fluxos, relegando a capacidade crítica.
    AbraSUS.

  • Alexandro Gesner Disse:
    22 de maio de 2010 às 14:47

    Boa estreia, Priscilla.
    Mais uma oportunidade para refletirmos sobre a aplicabilidade dos protocolos nos serviços e de percebermos até que pontos somos meros executores de fluxos, relegando a capacidade crítica.
    AbraSUS.

  • Keila Maia Disse:
    22 de maio de 2010 às 19:30

    Eu só poderia parabenizar amiga pelo texto…. e torcer para outras donas como Esperança … Fé , Sorte para que tenham sua dignidade preservada num país que é campeão na falta de respeito, que faz questão em burocratizar quando deveria disponibilizar, acolher.

  • Carol Disse:
    1 de junho de 2010 às 8:33

    Eita nois, a veinha com 79 anos, pós-menopausa tem entrar no guinness book. KKKKK…
    Esse é o nosso país!
    Mas agora, não vamos pensar nisso! A nossa seleção está na copa do mundo…

  • Giovani Unterberger Disse:
    13 de junho de 2010 às 17:55

    Lendo o texto, lembrei-me de uma música que fez muito sucesso na cidade de Morro do Chapéu em 2006. Cantavam algo como: ” O sistema é bruto” o tempo todo.

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