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    Perder tempo com assistência humanizada pra quê?

    humanização

    Nessa semana de ócio produtivo de festividades juninas, em meio a recordações e necessidade de discussão, encontro um texto de uma amiga datado de mais ou menos 10 anos e escrito enquanto ainda éramos acadêmicos de enfermagem no auge da nossa necessidade de formação qualificada, de desejo de mudança, de luta pela assistência humanizada. Reduzo-me nesse momento a simplesmente apresentar o texto que se segue abaixo. Boa reflexão a todos!

    ——–

    Leito 13, portador de câncer de pulmão, com feridas nas pernas, febril, mucosa oral alterada, com dificuldade respiratória, pele amarelada. Filho de dona Maria, irmão de Joana, casado com Filomena, pai de José, ansioso, com medo. Medo da morte, de deixar o filho recém-nascido nesse mundo cruel e tão desumano. Almejando carinho, um toque, atitudes remotas nesse contexto onde a identidade das pessoas é o leito, a enfermidade. Onde o escutar atento e o olhar são substituídos por procedimento, simples técnica, pensando os executores que, dessa forma, “fazendo”, “estão com” os pacientes.

    Nessa esfera, onde nos vêem apenas como “aquele que tem câncer”, ser irmão, pai, com problemas não só orgânico, mas de desemprego, familiar, enfim SER parece-me algo tão longínquo, obsoleto. Aqui soa como defeito. Defeito? Estabelecer um diálogo verdadeiro, atento, um olhar que diz “oh, estou como você”, ouvir as minhas interrogações e não fugir das respostas que  tanto anseio, agora tornou-se defeito. Meu Deus! Também, perder tempo com assistência humanizada pra quê? Afinal, tempo, segundo os racionais, é dinheiro.

    Hoje, sou eu, com câncer, amanhã será o cardíaco, depois será… Até o dia em que você, que agora na condição de assistir, nega uma atitude mais amorosa, mais humana, e que depois poderá estar implorando por tudo aquilo que eu desejava de você, mas que não permitiu que eu tivesse. Que angústia sinto ao defrontar-me com o paciente no leito, sofrendo e implorando pelo fim da sua agonia, clamando pelo fim da falta de ar, pelo término da dor no peito e por um copo de água que não pode mais ingerir pela presença de um edema acentuado. Sofro por não poder desempenhar melhor a minha atividade, por não prestar uma assistência mais qualifica, por não saber sistematizar aquela assistência que tanto esse paciente implora e necessita. E, ao presenciar essa antesala do inferno, sofro mais ainda.

    Sofro pela falta de orientação por parte dos “grandes mestres” que cruzaram (e ainda cruzam) a minha vida acadêmica e que apenas passaram por mim, sem ao menos dizer assim: oh existe uma coisa chamada Processo de Enfermagem, viu? E são esses os responsáveis por nós, futuros enfermeiros que promoverão saúde e suprirão as necessidades de saúde da comunidade. E o ciclo provavelmente continuará se repetindo, porque hoje estamos aqui, ainda sem saber o que significa Fazer Enfermagem, sem ainda saber qual a parte que nos cabe nessa árdua missão de promover saúde, sem saber quais são os nossos reais campos de atuação, sem saber, sem saber…

    Mas amanhã poderemos estar do outro lado, apenas reproduzindo o que hoje aprendemos e vivenciamos na qualidade de aprendizes. E o ciclo tornar-se vicioso. E quem mais sofre? Aquele paciente, que se encontra no leito, dispnéico, com dores únicas, pedindo água, enquanto nós, que não fomos informados sobre como detectar as suas necessidades, sobre como implantar uma medida mais eficaz e direcionada para aquele problema, continuamos impotentes diante daquele sofrimento. É patético quando recebemos informações do tipo “a sonda vesical, que possui funcionamento perfeito”, constituindo-se em problema, quando o verdadeiro problema é o temor da morte, é a ansiedade, é a auto-imagem afetada que toma conta do paciente e que, fielmente, sem questionar, acreditamos que são problemas menores ou sem importância diante da presença da sonda vesical.

    Que excelentes profissionais! Criados e acostumados com a pedagogia da transmissão. Não questionamos, apenas aceitamos o que vem de forma vertical, “de cima”. Assim realmente somos excelentes profissionais, pois preenchemos as exigências do sistema, aquele que dita as regras e nós apenas cumprimos com rigor britânico ou como os robôs do Japão, se assim preferir. Também, questionar como? Se não nos lançamos na busca do conhecimento, se não somos ávidos por informações, se não procuramos possuir subsídios para questionamentos consistentes, com fundamentos? Enquanto não possuirmos conhecimentos, não poderemos “cobrar serviço” de qualidade da outra parte. Por outro lado, enquanto os “orientadores” também não estiverem predispostos e menos resistentes a mudanças na metodologia do ensino, o ciclo continuará e quem realmente continuará sofrendo, cada vez mais próximo do fim, será aquele paciente, lembra?

    Texto gentilmente cedido por Geysa Gois, ENFERMEIRA com letras garrafais que tive o prazer de conhecer e compartilhar daquela fase de tantas discussões calorosas e enriquecedoras e que até hoje a tenho como parte de minha vida. Saudades dos nossos tempos de DA.

    * Dedico aos meus alunos do PET


    Publicado por Priscilla Sousa @ 23:35

    Tags: acolhimento, assistência, humanização

6 Respostas

WP_Cloudy
  • Carol Disse:
    30 de junho de 2010 às 9:09

    Essa situação me lembra a discussão dentro da Educação Infantil, a dicotomia entre o CUIDAR e o EDUCAR. Crianças qe são jogadas nas creches a fim apenas de não atrapalhar os pais que precisam trabalhar.

    Seja na saúde, seja na educação ou em qualquer outra área que lide diretamente com o ser humano, procedimentos técnicos deveriam ser complementos. As pessoas precisam ver seus alunos, paciente como outras pessoas e não bonecos que estão ali pra “receber” metodologias e procedimentos.

    Acerca do sistema, nem vale a pena muitas delongas…

    Vamos todos em busca de seres humanos mais humanos!!

  • Regina Lino Vieira Disse:
    30 de junho de 2010 às 21:42

    Adorei o pensar novo, bastante criativo ,o que nos faz refletir sobre nosso cotidiano com muita invenção.

  • Janaina Disse:
    30 de junho de 2010 às 21:54

    Gostei do texto assim que o li.
    Acredito que refletir sobre os profissionais que vemos e os que seremos é válido em qualquer área. Claro que atentar para atitudes humanizadas são ainda mais importantes quando, apoiando-se na fé, nas boas energias ou no respeito ao próximo, somos capazes de promover melhoras não so no estado de espírito, mas também no estado físico de cada um.
    Apoio o convite à reflexão e a atenção e inteligência com que vc seleciona suas postagens.
    Parabéns!

  • Thainan Seara Disse:
    30 de junho de 2010 às 21:54

    Primeiramente, adorei a dedicatória a nós Petianos ! :)

    Apesar de não ter tantas vivências, posso afirmar com plena consciência
    que esse descaso ocorre de forma predominante nos sistemas de sáude.
    É sempre importante rever esses conceitos…EVOLUIR !
    Ser racional…ter sensibilidade…ter conhecimentos técnicos…ACOLHER!

    Viver aprendendo. Perceber o outro como algo além do orgânico, faz-se necessário SEMPRE!

  • Lucimary Disse:
    17 de julho de 2010 às 12:39

    Olá Priscilla

    Excelente , um bom artigo para reflexão.
    Vejo essa realidade nos estagios, pois ainda sou estudante.
    Tive a felicidade de ser sua aluna.

    Obrigada

    bjs e saudades

  • Ministério da Saúde Disse:
    11 de agosto de 2010 às 11:20

    Olá!
    Você pode ajudar o Brasil a continuar livre da poliomielite! Ajude a divulgar informações aos papais e mamães, para que eles não se esqueçam de levar seus filhos menores de cinco anos para tomar a segunda dose contra a paralisia infantil, no próximo dia 14. Essa simples atitude faz com que as crianças do nosso país estejam protegidas de uma grave doença.
    Caso tenha interesse em ajudar a divulgar a Campanha Nacional de Vacinação Infantil, e para obter mais informações ou materiais da campanha – como o filme e banners -, entre em contato com comunicacao@saude.gov.br
    Obrigado por sua colaboração!
    Ministério da Saúde

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