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  • Recentemente recebi um e-mail que denunciava um concurso em cidade baiana que remunerava muito mal o Enfermeiro. Numa mistura de raiva e angústia, o/a autor/a, que não consegui identificar, chamava a atenção dos colegas para aquele absurdo. Dizia mais ou menos isso:

    “Gente, por favor, divulguem… Isto é uma aberração…

    É um desrespeito ao profissional enfermeiro que trabalha em função do bem estar do individuo,  realizando cuidados que primam pela promoção, prevenção, recuperação e tratamento de agravos e doenças crônicas, com uma carga horária tão exaustiva e a cada dia o mercado de trabalho vem oferecendo salários cada vez mais vergonhosos…vamos nos mobilizar! Cadê o nosso Conselho? Vamos cobrar uma atitude urgente dele! Assim não pode ficar! Quem está já com seu empreguinho pensa que não será atingido com essa desvalorização profissional que o mercado vem proporcionando… mero engano! Pois vejam as  prefeituras que têm a cara de pau de oferecer salários abaixo de R$1000,00; agora a Prefeitura de LAURO DE FREITAS passou dos limites, vejam tabela que copiei do edital:

    FUNÇÕES

    VAGAS

    VAGAS Port.Def.

    CARGA HORÁRIA SEMANAL

    PRÉ – REQUISITOS E ESCOLARIDADE MÍNIMA

    VENCIMENTO

    TX INSCRIÇÃO

    Enfermeiro

    15

    02

    40 h

    Graduação em Enfermagem e Registro no Conselho Profissional

    R$ 759,27

    60,00

    Vejam no endereço:  http://www.pciconcursos.com.br/concurso/prefeitura-de-lauro-de-freitas-ba-634-vagas

    Enviem esse e-mail a todos, divulguem em todas as redes sociais, procuremos ajuda, socorro!
    Vamos nos mobilizar enfermeiros, sejamos mais unidos… façamos algo, pois somos muitos e se nos unirmos teremos um enorme poder nas mãos…

     

    Com o objetivo de enriquecer o debate, elaborei algumas reflexões e distribuí via e-mail. As repostas foram interessantes e o amigo Wagner Alves sugeriu que eu trouxesse o debate também para o Penso. Sendo assim, segue o texto abaixo para que possamos ampliar a conversa. Agradeço mais uma vez a Wagner pelo espaço.

    ___

    Eu vou me aposentar e essas coisas continuarão acontecendo. Porém, não fujo de algumas considerações.

    1) A desvalorização salarial do profissional é preocupante? Sim, concordo. Mas vamos discutir quem realmente está desvalorizando quem?

    Deixemos de hipocrisia! Não é a Prefeitura de Lauro de Freitas que está desrespeitando ninguém. Ela age, assim como qualquer outra empresa, baseada na lei da oferta e procura: se há muitos “Portadores de Diploma de Enfermagem (PDE)” na praça (sim, porque ser Enfermeiro, em essência, requer não apenas um diploma), derrubaremos os salários que ainda assim seremos procurados. Se fossem profissionais raros, teríamos que majorar os salários e oferecer melhores condições de trabalho. Não esperem que esse raciocínio mude.
    “Mas e a qualidade, Alexandro, como fica?” Na real? Não fica. A maior parte das empresas públicas não vem se preocupando com a qualidade, pois enxergam a vaga de enfermeiro, técnico de enfermagem, médico, dentista, etc. apenas como uma mera vaga a ser ocupada. Inicialmente não importa se o candidato é bom. Basta ter o diploma/certificado.
    Digo isso porque um ser que dê valor a tudo aquilo que o seu diploma significa nunca fará um concurso que pagará R$759,00 por 40h de trabalho do Enfermeiro. Só se submeterão ao processo aqueles que estão desempregados, sem perspectiva de avanços, entupidos de insegurança diante de maiores concorrências por empregos melhores (concurso de SSA, p.e.) e, claramente, sem um pingo de auto-estima profissional. Agressivo? Talvez. Mas necessário.
    Será que os desrespeitadores são mesmo as empresas, as Secretarias de Saúde? Não acredito. Quem realmente desrespeita as/os Enfermeiras/os dignas/os são os PDE que se prestarão a fazer essa prova, assim como aconteceu em Cachoeira.

    2) A velha onda do “Vamos nos mobilizar!”

    Essa é interessante. Volta e meia circula um e-mail que sugere mobilização, paralisação, etc. O último foi sobre uma paralisação no dia cinco de agosto. Mas paralisar para mostrar o valor do trabalho de quem precisa parar para ser “percebido” é um dos mais lindos paradoxos que já vi. É falacioso. Acredito que o caminho seja exatamente o inverso. A Enfermagem não precisa de paralisações desarticuladas, num movimento sem robustez (inclusive, atribuíram indevidamente à ABEn a autoria do manifesto). A Enfermagem Brasileira precisa, antes disso, de AÇÕES QUALIFICADAS, exercidas por profissionais com competência técnico-científica, responsabilidade ética e compromisso social. O Ato do Enfermeiro deve ser repleto de significância para aquele que é cuidado, seja na assistência, no ensino ou na pesquisa (sim, construir conhecimento para o cuidado também é cuidar). Este Ato do Enfermeiro deve transferir a quem o presencia toda a imprescindibilidade que lhe é própria e deve deixar claro que quem realizou foi o/a Enfermeiro/a. É o marketing sobre o qual escreveu a professora Teresinha Trocoli? Sim, mas é o marketing aplicado, inerente à prática tanto na vivência da soberania clínica, defendida por Margot, quanto nas diárias lutas políticas (mas não partidárias) de Adroaldo. Só haverá mudanças significativas de dentro para fora. Hoje as equipes de Enfermagem são os sustentáculos dos serviços de saúde (e de doença também), mas a sociedade em geral ainda não percebe esta importância. Por que isso acontece? Culpa do sistema? Bah! Só é culpa do sistema se admitirmos que O SISTEMA SOMOS NÓS.

    3) Onde estão os Conselhos?

    Antes desta pergunta, deveriam perguntar “Onde está o Ministério da Educação?” quando o assunto é a abertura de novos cursos numa relação inversamente proporcional à qualidade dos mesmos: quanto mais cursos, pior a qualidade. Li que o COFEN agora terá uma participação maior na abertura e certificação de novos cursos. Isso é extremamente importante, mas vale outra discussão.
    Os Conselhos estão nos seus lugares, porém regular salários não é atribuição dos mesmos. Vamos estudar mais, gente? Pergunta: quem dos senhores denunciou formalmente infrações éticas (incluindo-se exercício ilegal da Enfermagem) aos Conselhos? Quem ficou insatisfeito com as respostas obtidas? Isso sim é parâmetro para a avaliação do Conselho. Aborreço-me quando vejo colegas reclamando do COREN quando nunca, NUNCA, fizeram uma denúncia sequer, nunca requisitaram a presença do Conselho em nada. Não tem lógica.
    Às vezes acho que é raiva por pagar anuidade. Só pode. Quando uma coisa não dá certo, a culpa é do Conselho que só aparece pra “pegar meu dinheiro da anuidade”. Mas se pagar anuidade é obrigação do profissional, pra que se tornou um, se não queria pagar?
    Quero maior ação do Conselho, sim, naquilo que é de sua governabilidade: Apurem adequadamente as infrações éticas, cassem aqueles que exercem a enfermagem ilegalmente, suspendam dos serviços aqueles que não sejam dignos de permanecerem no grupo, não permitam que os PDE incapazes de contribuir para o avanço da profissão permaneçam em campo.

    4) Por que esse desespero?

    Gente, o edital está aí, mas não é obrigado fazer a prova. Não precisa desespero. Concordo com a divulgação do caso para chamar a atenção dos colegas, assim como fizeram com o concurso de Cachoeira, através desta ferramenta interessantíssima que é a internet. É o que podemos fazer: Boicotar esses concursos e processo seletivos.
    Queria muito que não houvesse inscritos ou que os poucos inscritos fossem eliminados por baixa qualificação. Mas é apenas um grito no deserto. Haverá inscritos, aprovados e empossados. Muito provavelmente iniciarão um trabalho que, com o tempo, será realizado sem a qualidade necessária porque “o que me pagam é muito pouco para eu me estressar.” O Prefeito e a Secretaria de Saúde receberão queixas e dirão: “Mas com esse salário, nem vale a pena demitir.” E fim. Repetirão o discurso do “eles fazem de conta que me pagam e eu faço de conta que trabalho”, desqualificando tanto o Sistema Único de Saúde quanto a profissão.
    E aí num belo dia, dona Maria, lavadora de roupa, vai ouvir na rádio que os Enfermeiros fizeram uma paralisação de 24h em defesa de melhores salários e melhores condições de trabalho. Neste dia, dona Maria, moradora de uma cidade pertinho de Salvador, vai falar com a vizinha, em tom de desabafo:
    “Oxente! Pra atender mal do jeito que a enfermeira do posto fez comigo ontem, devia era suspender o salário que ela recebe! Os pacientes devem ter agradecido por ela não ter trabalhado hoje nessa greve!”

    E você, Enfermeiro/a que se dedica, estuda e que não esqueceu o Juramento que fez?
    Que marca está deixando nas donas Marias de quem cuida todos os dias?

    Imagens disponíveis na internet.

    Posted by Alexandro Gesner @ 16:40

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6 Comments to Salários, concursos e dona Maria

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