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“A parte sem o todo não é parte”

– Mas o que está limitado é o global, não o que é específico para a saúde ou para a educação. Para a saúde, a verba vai até aumentar! – diziam os defensores do governo, num país bem distante daqui.


Rute recebe R$ 5.000,00 por mês. Isso é o global. Com isso ela tem que comprar comida, roupa, medicamentos, exames, pagar os serviços, aluguel, escola dos meninos, etc. Rute sabe que tudo está aumentando, mas o patrão avisou: Sem aumento por 20 anos. R$ 5.000,00 e ponto final.

Grosso modo, no primeiro ano, Rute gastava R$ 1.500,00 com alimentação, R$ 2.000,00 com contas, aluguel e educação e R$ 1.500,00 com gastos relacionados à saúde.

Em dois anos, aquele remédio mais barato saiu de linha, obrigando-a a comprar outro, mais caro, o posto de saúde do SUS fechou e ela precisou contratar um plano de saúde “popular” (que não resolve quase nada) e os exames que ela ou os meninos precisam fazer sempre passam por reajuste. Pra completar, o mais velho vai precisar de óculos.

Assim, a despesa com saúde/doença passou para R$ 2.500,00. Aumentou? Sim, mas saem dos mesmos R$ 5.000,00 globais. Como pode? Reduzindo na comida e nos estudos: matriculou os filhos numa escola menos conceituada. Eles sentiram a diferença, mas como a prefeitura reduziu o número de professores e encheu as salas de alunos, ainda é melhor que colocar na escola pública.

No ano seguinte, as coisas continuaram aumentando, exceto os salários. As contas e a educação comprometem R$ 1.400,00 e ela sabe que é o último ano dos meninos em escola particular. Por conta do estresse e da mudança na alimentação, Rute agora tem gastrite e precisa comprar novos medicamentos. O problema é que, mesmo gastando R$ 2.400,00 com seus tratamentos, ela não consegue o que precisa, bem diferente de três anos atrás. Teve que cortar as consultas do filho com o oftalmologista (as notas são baixas porque não consegue enxergar direito) e a anemia do menor vai ter que esperar um pouco para ser tratada: Rute acha que não tem como tirar mais nada da alimentação, já em R$ 1.200,00.

No final do terceiro ano de salário congelado, Rute verificou que, mesmo aumentando o gasto com saúde, estava passando mais necessidade que nunca. Riscava e rabiscava num papel, mas não podia remanejar mais nada dentro daqueles R$ 5.000,00. O mundo não congelou como o seu salário. Corpo e saúde são imprevisíveis, como ela poderia controlá-los? Rute então se lembrou de um vídeo, onde o presidente tentava convencê-la de que limitar o gasto global não significava limitar as partes deste todo. Que limitar o gasto total não iria impactar nos “pedaços” que o compõem.

Mentiroso! gritou ela, num misto de revolta e desespero. Os filhos acordaram no meio da madrugada. Lágrimas molharam as contas vencidas sobre a mesa.

Título  em alusão ao soneto “Ao braço do mesmo Menino Jesus quando apareceu”, de Gregório de Matos

2 thoughts on ““A parte sem o todo não é parte””

  1. Totalmente impreciso! Tanta coisa que nem sei por onde começar!
    > Da mesma forma que Rute ganhou uma gastrite ela pode ganhar mais renda, tipo no Uber!
    > Tudo é imprevisível, cabe ela se precaver da melhor forma possível! Hoje ela ganha 5k no emprego x, talvez amanhã uma amiga convide ela para o emprego y, e ela passe a ganhar 10k.

  2. Paulo, você só não considerou que, nesta comparação, o que não pode aumentar é exatamente a “renda” de Rute. Ela vai ter que se organizar apenas com este valor fixo, sem Uber, sem novo emprego.
    Quando o governo “congela” o orçamento das políticas sociais, está dizendo que, independente do que aconteça, só vai investir essencialmente os mesmos X durante 20 anos.
    E se acontecer uma epidemia, exigindo mais medicamentos que o previsto? Não importa, se aumentar na saúde, tem que reduzir da educação.
    Mas se houver uma calamidade e o país precisar conceder benefícios emergenciais a pessoas que perderem casas em desastres naturais? Dane-se. Nesse caso, tem que reduzir da saúde pra colocar na Assistência Social, por exemplo.
    Você está coberto de razão quando admite que o universo não é linear e que a imprevisibilidade sempre existe. Por isso, devemos sempre buscar novas fontes de recursos para usar quando for necessário. O Brasil está fazendo o contrário.

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