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A vitória do Aedes

Foto: James Gathany/CDC

O Ministro da Saúde, Marcelo Castro, foi criticado novamente por causa de suas declarações. Agora, a polêmica surgiu por ter afirmado que nós estamos “perdendo feio” no combate contra o Aedes aegypti. Mas, desta vez (repito: desta vez), será que ele está errado?

Se considerarmos os números de 2015, quando mais de um milhão e meio de pessoas adoeceram por dengue, o impacto que a febre do Chikungunya causou nos serviços de saúde de todo o país e a atenção que o Zika Vírus tem recebido (no Brasil e fora dele), fica evidente que os avanços e conquistas dos últimos anos relacionados ao controle vetorial não foram suficientes por aqui.  E não é coisa recente, Senhor Ministro.

Há tempos que o “Dengue” deixou de ser o amiguinho do “Praga”, divertindo a criançada no “Xou da Xuxa”. Como grande problema de Saúde Pública, a doença já matou (e continua matando) crianças, adultos e idosos, graças à capacidade de adaptação do Aedes e a nossa negligência. Não me refiro apenas a nossa parcela de culpa enquanto indivíduos, como refletimos aqui no Penso em 2010, mas aos outros elementos que pesam bastante para o alcance de bons resultados.

Também não sejamos ingênuos, acreditando que a proliferação do vetor só é problema para os brasileiros: Existem outros países sofrendo epidemias de arboviroses, claro. Entretanto, olhemos para o nosso quintal primeiro.

Além das campanhas publicitárias que são veiculadas em determinado período do ano, nossos leitores seriam capazes de comentar sobre a regularidade das visitas dos Agentes de Combate às Endemias (ACE) em suas residências? Eram frequentes, os trabalhadores faziam inspeções detalhadas em busca de criadouros? Não digo agora, que o desespero tomou conta das ruas, mas antes: Quando dengue já matava muito, mas nos acostumamos a achar que era “assim mesmo”.

Arrisco-me a dizer que muitos responderão negativamente. Não é para menos: Em discussões de que participei e relatórios que li, não foram raras as queixas relacionadas às equipes incompletas (poucos trabalhadores para muito trabalho), escassez de materiais (gerando interrupções das atividades) e falhas na supervisão do que era executado.

A supervisão, por sinal, é um elemento importante de todo esse processo. Seria ótimo se todos os profissionais cumprissem suas obrigações mesmo quando não existisse ninguém olhando, mas não podemos apostar nisso. E nos casos em que o ACE precisa comprar o próprio lápis para trabalhar porque a Secretaria Municipal não forneceu? A presença da coordenação ou supervisão, para apoiar e acompanhar a superação dessas dificuldades, é ainda mais necessária.

Nesse ponto, a rotatividade dos profissionais que ocupam as coordenações dos serviços, gerada pela precarização dos vínculos trabalhistas e ausência de critérios técnicos para a indicação ao cargo, fragiliza sobremaneira o processo de gestão. Com a troca de equipe a cada dois anos (ou ao bel-prazer dos Secretários), estratégias são descontinuadas e muita coisa tem que recomeçar.

Por outro lado, como um grupo técnico pode ser bem conduzido por alguém que foi nomeado por afinidades pessoais, desconhece a área em que deveria atuar e estará mais preocupado em angariar votos para o prefeito nas próximas eleições? Onde estão os editais de concursos púbicos, os planos e projetos de carreira para profissionais do Sistema Único de Saúde? Nós estamos sendo negligentes também neste aspecto.

Com relação às pesquisas na área, por que a parcimônia na hora de investir em projetos inovadores para combater o mosquito? A mortalidade por dengue não era argumento suficiente? Se não fosse a surpresa do Zika e sua associação com a microcefalia, não teríamos a grana necessária para enfrentar o velho inimigo?

Destacando uma entrevista do ex-ministro José Temporão, incluo em nossa conta o descaso relacionado ao saneamento básico das nossas comunidades. É fácil colocar uma musiquinha na rádio pedindo pra que as pessoas esvaziem ou cubram os recipientes que contenham água. Mas quando se mora na periferia, onde não há água encanada ou o abastecimento é irregular, o armazenamento da água é obrigatório: o risco de infestação aumenta. E a coleta do lixo, como vai? É minha obrigação respeitar os dias e horários indicados para que o caminhão colete os resíduos que produzo, concordo. Só que ainda há locais em que essa coleta não existe. O que nossos governantes estão fazendo com relação a isso?

Estamos vivendo uma crise de responsabilidades em que alguns gestores, com dificuldade de assumir aquilo que lhes cabe, deixam transparecer notório despreparo. Enquanto um secretário de estado recomenda que as mulheres baianas deixem de usar saia e roupas curtas (este cidadão não deve saber o que é calor), o próprio Ministro, que está perdendo a batalha contra o mosquito, assumiu que o jeito era torcer para que as mulheres tenham Zika antes da idade fértil.

Infelizmente (?), isso não é privilégio nosso. Em El Salvador, a dica é não ter filhos até 2018. Simples assim.

Vejamos: Se a culpa por ter adoecido é da mulher, que usou saia e facilitou a vida do mosquito; e se as meninas precisam adoecer logo, para que não se sintam culpadas durante uma futura gravidez, não me surpreenderei se as visitas aos imóveis forem restritas às denúncias feitas pelos smartphones: Cuidado pra você não levar a culpa toda, só porque não instalou os aplicativos…

Nessa maré de eventos graves, incluindo a relação entre Zika Vírus e microcefalia, e na frenética busca por falsas soluções, percebo um ambiente propício para mudanças, nem sempre justificáveis.

Preocupadas com o impacto financeiro deste surto em nossa sociedade, as autoridades constituídas poderão retomar as discussões sobre a descriminalização do aborto, não objetivando a redução da mortalidade feminina, mas numa perspectiva nada nobre: Economia. Tomara que eu esteja errado.

Considero que o Aedes venceu a batalha, sim. Uma batalha, apenas. Estamos aprendendo e temos condições de melhorar. Outras batalhas virão, pois a guerra continua.

One thought on “A vitória do Aedes”

  1. É, meu querido Alexandro, nem sei como começar! Incontestavelmente, limito-me a parabenizá-lo pelo texto e agradecê-lo pela possibilidade de repensar e discutir esse tema tão antigo, mas tão atual e complexo.
    Concordo, perdemos a batalha. Porém, falta muito para vencer essa guerra. Há tempos “vesti a camisa” do combate ao Aedes aegypti, muito antes de ter sido vítima dele (eu, meus familiares e pessoas que cuidei adoecidos; amigos mortos).
    E uma coisa me deixa indignada: municípios que pensam que estratégia de combate é convocar profissionais para participar de Mutirão. Essa pauta é para o ano todo: é para discussão aprofundada com diversos atores; é para conhecer as mudanças do perfil epidemiológico; repensar a situação das mudanças climáticas, dos desmatamentos, da migração populacional, da ocupação desordenada de áreas urbanas, da precariedade das condições sanitárias; é para planejar baseado em indicadores… E antes que outros vírus apareçam/reapareçam para fazer companhia à zika, dengue e chikungunya (esqueceram da febre amarela?)
    Portanto, não me convidem para “mutirão de limpeza”!

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