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Carnaval, cápsula e violência

É carnaval, tudo é festa e os problemas de repente “desapareceram”. Na TV, nas ruas, nos copos e corpos tudo está colorido, afinal, é hora de festejar. No País do Carnaval e das mulheres fáceis, como somos vistos lá fora, tudo está preparado para que gringos e nativos se esbaldem aproveitando cada palmo e cada gota de nossa cultura.

Será? Será que o máximo a fazer é repetir, ano após ano, a mesma receita que reforça o estereótipo da mulher brasileira como objeto e do país como destino feliz para quem busca turismo sexual? É claro que nem todos os estrangeiros que nos visitam nesse período viajaram em busca de sexo e é óbvio que muitas brasileiras ganham muito dinheiro e se sentem mais felizes utilizando o próprio corpo como propaganda (devemos respeitar essa escolha). Mas precisamos mesmo admitir que nenhum contraponto deve ser feito?

Vamos jogar a toalha e considerar que “em time que está ganhando não se mexe” para que os lucros do carnaval não sejam reduzidos? Quem realmente ganha com essa imagem?

Alerto: Não estou defendendo o fim de tudo, apenas que haja uma nova forma de pensar e fazer o carnaval. Querem sexo? Que seja entre adultos, usando camisinha, de forma consensual, e não com crianças e adolescentes constrangidos pela falta de amor.

Se o Fulano, seja lá de onde for, quiser experimentar em Salvador o que a baiana tem, que seja sem violência, sem desprezo e com menos riscos. Será tão difícil promover algo assim?

Fico satisfeito ao ver o trabalho do pessoal que atua no Observatório de Violências e também a campanha, ainda que tímida, do Ministério da Saúde, voltada para a realização do teste rápido.

Porém, quando me deparo com a cápsula suspensa para sexo expresso, desenvolvida sob o pretexto de promover o uso da camisinha, e com a propaganda de uma marca de cerveja que estimula o estupro tenho que admitir: É preciso fazer muito mais para começar a reverter um processo construído há anos.

Considerando que em Salvador, na Copa do ano passado, as equipes do Projeto Proteja o Gol identificaram 58 casos de HIV, e que nesta capital o número de adolescentes com resultado positivo para HIV dobrou em 2014, pode-se perceber que as jovens baianas estão bastante vulneráveis principalmente nesse período.

Crédito: alexpenny.com
Crédito: alexpenny.com

 Quando as famílias estão fragilizadas ou desestruturadas, quando a educação formal não consegue apresentar perspectivas de desenvolvimento e quando a ausência de projetos de vida levam as adolescentes para aventuras incertas, o desfecho não nos é estranho.

Pelo contrário, internalizamos como banal a perversidade de um sistema em que, por dificuldade de dizer “não”, muitas mulheres são submetidas desde cedo a diversas violências, da psicológica à sexual.

Pior, incomodamo-nos quando alguém se posiciona, repudia ou denuncia as invenções que de alguma forma agridem as mulheres. Num país onde é cada vez mais fácil ser homem, ouso recomendar a quem tem meninos em casa:

Ensine-os que não basta respeitar as mulheres. É preciso que eles também estejam dispostos a enfrentar quem as desrespeita.

5 thoughts on “Carnaval, cápsula e violência”

  1. Olá amigo sei que você já tomou conhecimento dos resultados de 2015.
    Tomei conhecimento e fiquei alarmada.
    Tanto trabalho de informação que realizamos!
    Imagine qdo não estiverem sendo alertados
    Abraços colega

  2. Oi, Alex! É triste ver os nossos jovens tão desorientados, correndo atrás de “prazeres”, sendo levados a experimentar tudo o que aparece no mercado, na mídia, feito autômatos. Os valores estão invertidos. O que teremos para o futuro?
    Quero parabenizá-lo por trazer um assunto tão importante para refletirmos.
    Abraços.

  3. Como parte integrante do grupo minoritário e que imagina o quanto ainda tem de presenciar aberrações ditas, cometidas e aprovadas até pelo próprio grupo, louvo e agradeço tua inteligência, tua ação e tua voz colocadas à disposição do bem e da humanidade. Grande deferência ter-te como amigo. A bênção de Deus e dos seus maiores esteja sempre sobre ti. Abração Alex!

  4. Alex, a banalização do HIV (dentre tantas outras doenças) repousa e encontra lastro exatamente na cultura promiscua e desrespeitosa que está sendo produzida e difundida na cultura brasileira. Fico cada vez mais preocupado com a situação e observo de forma curiosa como população brasileira parece precisar temer algo para minimamente o respeitar. Assim era quando o medo do desconhecido trazia a tona a reflexão prévia ante a possibilidade de uma infecção por HIV. Mas hoje….

  5. Parabéns Alex! Uma voz masculina que se levanta e defende as bandeiras que as próprias mulheres demoram para encampar!!É preciso alertar, incomodar, denunciar, refletir, como você vem fazendo.
    Um grande abraço meu amigo.
    Olívia

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