Créditos: morguefile.com

É Dia da Saúde. E daí?

07 de abril. Todo ano a OMS convoca instituições e pessoas para comemorarem o Dia Mundial da Saúde elegendo um tema que merece ser lembrado e sobre o qual precisamos refletir. Em 2016, a bandeira é o diabetes, que mata muito no mundo todo. Em 2014 foram 4,9 milhões de mortes causadas pela doença. Com o aumento da prevalência dos fatores de risco, estima-se que em 2035 haverá 592 milhões de pessoas acometidas. Provavelmente você tem ou conhece alguém que vive com diabetes. Reconhecemos a magnitude do problema e endossamos as iniciativas que deem visibilidade à questão, mas precisamos avançar.

No Dia Mundial da Saúde, temos que reconhecer os ganhos no controle das velhas doenças infectocontagiosas (e no enfrentamento das novas), o aumento da sobrevida das pessoas com AIDS, o desenvolvimento das tecnologias para transplantes. Mas também precisamos admitir a dificuldade no acompanhamento das pessoas com doenças crônicas (diabetes, inclusive), o fracasso dos planos de controle vetorial, que não contemplaram o investimento necessário em saneamento, a dilapidação intencional do Sistema Único de Saúde pelos poderes Executivo e Legislativo (reféns dos donos de planos de saúde), seja pelo subfinanciamento quase criminoso ou pela afronta aos profissionais que mantêm a roda girando, mesmo moralmente assediados e com seus direitos trabalhistas reduzidos. Não é à toa que estamos tão expostos ao burnout.

Créditos: morguefile.com
Créditos: morguefile.com

Em meio à turbulência cotidiana que requer medidas sustentáveis e eficientes, tem sempre um dia D propagandeado, repetido cartorialmente, muitas vezes sem razão de ser, apenas pra compor tabela. Dias que se esgotam neles mesmos, sem prestação de contas nem apresentação de perspectivas. “Dia de Faxinaço”, “Dia D Disto”, “Dia D Daquilo”, “Mês Amarelo”, “Mês Furtacor” (porque faltam meses no ano que comportem todas as mobilizações). Pra que tudo isso se o empenho e o compromisso de gestores, profissionais e comunidade não provocarem alterações de comportamento? O que esses momentos representam no conjunto de práticas executadas durante todo o ano? Em que eles se baseiam e de que forma se inserem como “molas” que possam estimular os atores na busca por objetivos comuns? Ou servirão apenas para selfies e fotos para verificação de qual grupo fez o mural mais colorido?

Se há tempos eu não valorizo a visita domiciliária como estratégia do Cuidado, nem consigo mais realizar uma consulta demorada por causa da sobrecarga gerada pela escassez de serviços públicos, de que me serve o “Dia D”?

Se nós perdemos a capacidade de dialogar com as pessoas de quem cuidamos, de olhar nos olhos de dona Maria, pra que convidá-la para o Dia da Saúde?

Se nós não nos indignamos mais com a falta de vagas para o exame de Seu José (que vai morrer mais rápido sem aquele resultado) e não estamos dispostos a enfrentar a negligência de alguns maus gestores, com que cara pediremos a ele que vá para o “café da manhã dos hipertensos”?

O ano tem pelo menos 365 dias, todos repletos de vida e problemas. O pedido de hoje é para que usemos todos eles com afinco. Façamos os dias D? Sim, mas que eles tenham objetivos, robustez. Que tenham prestações de contas sobre o que foi feito durante o ano. Que sejam assumidos novos compromissos a serem apresentados em grandes assembleias no ano seguinte. Que gestores e profissionais se sintam responsáveis por cada morte ocorrida e por cada vida salva por meio de suas assinaturas e atitudes.

“Dias D” nós já temos suficientes. Temos que fazer diferença no “Dia-a-dia”.

One thought on “É Dia da Saúde. E daí?”

  1. Simplesmente, a Saúde integra o oba-oba que está instalado no país do Carnaval. Ações para selfies, reinaugurações festivas por um parafuso trocado ou um prego acrescido e a falta de quase tudo. Uma lista interminável de serviços oferecidos mas não correspondentemente prestados. A população, nariz de palhaço, aplaude e como por enquanto ainda não morreu, vai atrás do trio elétrico, pra na semana seguinte se cansar ou descansar? nas filas de espera. Tá tudo muito bom. Tá tudo muito bem. Mas realmente… Assim, como no cancioneiro.
    Parabéns Alex! Deus conserve e aumente sua
    capacidade de expressar verdades.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Widgets powered by AB-WebLog.com.