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HANSENÍASE TEM CURA

No último domingo do mês de janeiro, dia 25, comemorou-se o “Dia Mundial de Combate à Hanseníase”, instituído pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Além do objetivo de reafirmar o compromisso de luta contra a doença nos países endêmicos e orientar a população sobre a doença, acho importante trazer à tona esse tema (independente da data da comemoração) por ainda ser considerado um problema de saúde coletiva no país.

A hanseníase é uma doença crônica, infectocontagiosa, cujo principal agente etiológico é o  Mycobacterium leprae. Esse bacilo tem a capacidade de infectar grande número de indivíduos, no en­tanto poucos adoecem. A doença atinge pele e nervos periféricos podendo levar a sérias incapacidades físicas. É transmitida principalmente pelas vias respiratórias superiores de pacientes multibacilares não tratados. Apresenta-se no corpo principalmente por manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas em qualquer parte do corpo, área de pele seca, com falta de suor e com perda ou ausência de sensibilidade no local, dentre outros sinais e sintomas.

É conhecida desde os tempos bíblicos como lepra. A hanseníase tem tratamento e cura. Desde a década de 1940 iniciaram-se drogas para seu controle e a partir da década de 1950 a terapêutica é realizada em nível ambulatorial. O tratamento é gratuito, feito somente nos serviços autorizados pelo Sistema Único de Saúde – SUS. A depender da forma da doença, o tratamento medicamentoso varia de seis meses a um ano.

Mesmo tendo cura e percebendo a tendência da detecção de casos novos de hanseníase decrescente no país, notamos ainda uma alta detecção nos estados das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, quando comparados aos estados das regiões Sul e Sudeste.

Sem título

                 FONTE:  SINAN/SVS-MS

Ao avaliar a série histórica dos casos de Hanseníase 2001-2012 na Bahia, considerando os parâmetros inseridos na Programação de Ações Prioritárias de Vigilância em Saúde – PAVS, percebi alguns dados e indicadores importantes para análise da situação da hanseníase no nosso estado (veja no quadro 1).

QUADRO 1. INDICADORES EPIDEMIOLÓGICOS E OPERACIONAIS DE HANSENÍASE, BAHIA, 2001 A 2012
QUADRO 1
FONTE:  SINAN/SVS-MS

É necessário saber que a redução de casos em menores de 15 anos é prioridade do Programa Nacional de Controle da Hanseníase, sendo o indicador da hanseníase no PAC – Mais Saúde. A detecção de casos nessa faixa etária tem relação com doença recente e focos de transmissão ativos e seu acompanhamento epidemiológico é relevante para o controle da hanseníase (Brasil, 2008).

O coeficiente de detecção em < 15 anos na Bahia nos anos de 2001 a 2012 variou de 4,71 a 8,06 no período, considerado “muito alto”.  O coeficiente de detecção na população geral variou de 17,04 (2001) a 29,32 (2004) considerado “muito alto” e em 2012 o coeficiente encontra-se em 17,94, valor considerado “alto”.  O percentual de avaliados quanto ao grau de incapacidade física (GIF) no diagnóstico foi 87,3% para o período, considerado “regular”. O GIF 2, importante indicador de detecção precoce, oscilou entre 3,1% e 8,5%, apresentando classificação de “baixa” para “média” no período, segundo parâmetros.

A proporção de contatos examinados oscila entre 69,7% em 2001 e 31,8% em 2006, mantendo-se atualmente com classificação “regular”. O percentual de cura nas coortes variou entre 60,% em 2003 e 82,9% em 2012, também classificada como “regular”. Vale salientar que o resultado desse indicador é fortemente influenciado por fatores relacionados à atualização do acompanhamento do paciente no SINAN.

PARÂMETROS PAVS

PARÂMETROS

Viram que os dados de nosso Estado não estão nada satisfatórios? Percebem o quanto avançamos desde a Antiguidade (nas citações da Bíblia ainda não tínhamos a cura, salvo a intervenção de milagres), e o quanto ainda precisamos progredir no controle e erradicação de uma doença que tem prevenção, tratamento e cura?

Lembro-me de um dado período quando trabalhava em uma Equipe de Saúde da Família ao analisarmos  os indicadores, observamos que a área era endêmica naquele município. Na tentativa de minimizar o problema e descentralizar o serviço de Hanseníase no município, iniciamos junto com o Centro de Referência o treinamento da equipe e sensibilização sobre o tema nas escolas e nas reuniões na comunidade (Associações, Conselho Local). Após esse ciclo, agendamos um “Dia D” com a presença de todos os profissionais da equipe da ESF, médicos dermatologistas da cidade, a equipe do Centro de Referência e a equipe do laboratório para coleta de linfa. Realizamos consultas médica e de enfermagem para detecção de casos novos e avaliação dos contatos de casos já em tratamento. Saímos daquele dia com 10 casos novos diagnosticados, sendo que 2 casos eram  contatos de casos já em tratamento e os dois tinham menos de 15 anos.

Entendo o fato de se escolher um dia para lembrar a hanseníase como uma forma de mobilizar o compromisso político e social para aumentar a atenção na área de prevenção, educação e controle da doença, tanto negligenciada no nosso cotidiano.

Como anda a situação da hanseníase no seu município, no seu local de trabalho? Seu olhar é atento? Você tem experiências exitosas para nos contar?

 

2 thoughts on “HANSENÍASE TEM CURA”

  1. Muito bom seu texto amiga Priscila !Parabéns!É triste vermos que há tanto tempo se sabe como trata, que tem cura, e tantas pessoas ainda chegam ao serviço com incapacidade. Muitas vezes dá a sensação de fracasso. Fizemos no município onde trabalho ano passado momento de intensificação das ações voltadas para Hanseníase, e apenas em um dia detectamos 03 casos novos.Já obtive êxitos em outros locais de trabalho os quais passei, no qual existia preocupação por parte de todos quanto a problemática, visto ser local de alta incidência, mas é preciso mesmo investir em capacitações e sensibilização por parte dos profissionais e comunidade. Mas essa semana em unidade hospitalar atendemos paciente que nem a Rede Básica sabia ao certo sobre o mesmo, que há dois anos está em tratamento, e interna para cuidar da lesão em pé, proveniente da Hanseníase e o estranho é que ninguém sabia dizer nada ao certo sobre o mesmo, que há alguns dias estava sem medicação. Por aí entendemos porque estamos com dados tão elevados.Mas acreditemos que haverá mudanças, agora é preciso investir na EDUCAÇÃO e políticas públicas de saúde que sejam de fato concretizadas .

  2. Belo trabalho, Pri. Você conseguiu demonstrar a magnitude do problema e sinalizar para a importância do seu enfrentamento. Os profissionais devem entender que hanseníase precisa estar sempre na agenda da Atenção Primária. Escuto rotineiramente que faltam neurologistas, dermatologistas, etc., mas seria esse o nó crítico? Será que temos feito nossa parte com base na soberania da clínica, ou estamos nos escondendo na ausência dos especialistas, até quando não há necessidade do encaminhamento para eles?
    Medo, preconceito, estigma, tudo isso permeia o imaginário de muitos profissionais. Grades curriculares que não contemplam o problema e a incipiente educação permanente nos nossos serviços contribuem para isso. Há pouco tempo, o COSEMS da Bahia emprestou aos municípios um caminhão temático para a realização de consultas, como se estivesse fazendo grande coisa.
    Cá pra nós, se temos dificuldade em diagnosticar e curar hanseníase, é por falta de carreta?

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