Crédito: morguefile.com

Lar para quem?

Uma das coisas que aprecio quando uso ônibus urbano é a possibilidade de observar através da janela um mundo que normalmente não perceberia, se estivesse preocupado com a direção do carro. Situações que causam surpresa, alegria, tristeza… Por vezes, cenários que o cotidiano insiste em camuflar, mas continuam por aí: hostis, improváveis ou fabulosos.

Numa dessas idas ao trabalho, com sono demais para ler o que levava na mochila, passei a “viajar durante a viagem”, sondando a infinidade de combinações que o universo monta com nossas vidas. De repente, o chamado: “Em breve, lar para idosos!”, anunciava a faixa num sobrado qualquer.

A reflexão não tardou, resgatando várias discussões já travadas sobre a situação dos idosos em nosso estado. Lar? Para quem?

Numa sociedade voltada para o imediato, com famílias menores, formadas por membros cada vez mais sobrecarregados com atividades que os empurram para fora de casa, ao mesmo tempo em que poucos têm condições de contratar cuidadores pagando os justos valores exigidos por lei, que destino estamos escrevendo para os nossos idosos? Aliás, que caminhos traçamos para nós mesmos, num futuro próximo?

Será que depois de uma vida dedicada à família, de fazer um tudo para comprar aquela casinha que abrigou filhos, netas e agregados, o máximo que dona Isabel terá é um convite (intimação?) para sair de casa e se acomodar numa Instituição de Longa Permanência para Idosos (ou num simples asilo)?

O que passará na cabeça de dona Isabel, quando ela receber a notícia de que seu cantinho, aquele pedacinho de chão caprichosamente arrumado do seu jeito, não será mais seu porto seguro? Que suas mãos não mais ajeitarão aqueles quadros na parede, nem aquelas fotos na estante?

Que tipo de sentimento preencherá o coração dela, quando chegar àquele sobrado (sim, ao tal “lar para idosos” recém-inaugurado) e reafirmar que ali é apenas um lugar, pois o seu lar de verdade agora ficou pra trás, e não pode mais ser chamado de seu? Não há fotos nem quadros que contem a história de dona Isabel naquele lugar…

Sentirá revolta quando as visitas dos familiares forem se tornando cada vez mais raras até deixarem de acontecer? Perceberá, enfim, que da mesma forma que aquele sobrado não é seu lar, ela também foi deixando de ser dona Isabel, naquele lugar?

Crédito: morguefile.com

Onde estarão seus filhos? Quão lindas estarão suas netinhas? Não sabe, e deve ser difícil admitir que nunca saberá. Sentada na solidão de um banco qualquer, naquele sobrado que nunca será o seu lar, dona Isabel espera. Apenas espera.

O ônibus chegou ao ponto, saí triste. Olhei ao redor, a mesma rotina, a mesma correria; o mundo não vai desacelerar. Sei que as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) são importantes e devem ser continuamente qualificadas para oferecerem bons serviços. Também sei que o número delas irá aumentar, inevitavelmente.

Portanto, registro aqui um pedido aos leitores: Caso tenham familiares em ILPI, não os abandonem, visitem-nos quando possível. Se faltar vontade, não custa lembrar: Em breve, nós poderemos estar no lugar de dona Isabel. Esperando.

5 thoughts on “Lar para quem?”

  1. Parabéns! Parabéns! Você me emocionou retratando essa triste verdade.
    O que estamos fazendo com nossos idosos? Nesse momento da vida eles (nós futuramente), precisam ser acolhidos, amados, e não descartados.
    Continue se indignando Alex, e nos brindando com essas reflexões!!!!!

  2. Parabéns Alex. Continue indo de ônibus e nos agracie sempre com reflexões como essa!
    Acredito que Priscilla e Keila, pela temática, sentem-se contempladas
    Abc e parabéns por alavancar nosso retorno

  3. Parabéns Alex. Uma bela reflexão, penso que você trouxe um elemento muito importante para nossa reflexão, quando fala para pensamos que amanhã pode ser nós. O se colocar no lugar do outro faz toda a diferença. Acredito que a mudança para nos aproximarmos mais de nossos idosos, “nossos velhos” perpassa por aí. É muito cruel e desumano a forma como tratamos nossos idosos. O que dói não é ele ir para os chamados asilos, lar para idosos ou seja lá qual for o nome; É o que fazemos com eles quando lá estão!!!!!

  4. Quanta coisa para pensar sobre o que escreveu nesse lindo texto, Alex! Realidade do tipo “nua e crua” o que você nos trouxe…
    Ai me vem à cabeça: A importância de termos Instituições de Longa Permanência (ILPI) como alternativas para o cuidado ao idoso X como estão estruturadas nossas ILPI; a responsabilidade de familiares com “seus” idosos mesmo institucionalizados; nossa co responsabilidade com a vida e as escolhas que fazemos ao longo dela para a construção de uma velhice saudável e ativa. Quando construiremos lares dentro de nós independente do lugar que moremos e da idade que tivermos?
    Penso que Dona Isabel terá muitos sentimentos diante da situação mas certamente estará isolada socialmente ou deprimida e consequentemente com déficit cognitivo (quiçá demenciada) o suficiente para não lembrar QUEM SÃO seus entes “queridos” , muito menos AONDE ELES ESTÃO. Não, não é cruel, é realidade! Já visitaram alguma ILPI?
    E muitos de nós aqui, sem tempo nem para pensar que estamos envelhecendo pois precisamos viver a juventude como o último de nossos dias, sem lembrar de um possível amanhã.
    PS.: Wagner, contempladíssima! rs

  5. Sobre esse assunto sempre reflito sobre o que nós podemos fazer enquanto sociedade e enquanto profissionais de saúde para estimular os idosos a serem ativos, autônomos e independentes de forma a evitar (num dos fatores) a institucionalização. E para os idosos que estão lá nos lares, será que necessitam apenas do básico? Alimentação, higiene, segurança? Ou será que nós podemos contribuir para a qualidade de vida deles, evitar as demências, as limitações físicas, promover o autocuidado? Claro que sim. Até porque muitos que estão lá tem capacidades sim, mas para mante-las e desenvolve-las é preciso de nosso cuidado, integral. Então, sempre que vou a uma ILPI saio motivada a ajudar, a fazer algo para reduzir a ociosidade, a preencher um pouco do tempo deles com ações que eu posso promover, educação em saúde, estímulo cognitivo, físico, ou até mesmo uma boa conversa e uma escuta mais demorada.

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