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Quanto vale a vida de $eu filho? (Parte 1 de 2)

Essa pergunta causa desconforto mesmo para quem ainda não é pai ou mãe. Remete às discussões filosóficas sobre a (im)possibilidade de precificarmos a vida humana mas é cheia de significado até para quem não sabe ler.

Ao mesmo tempo em que concordamos que não se pode medir esse valor em moeda corrente, sabemos que há uma série de gastos e investimentos relacionados à manutenção da vida de um filho; Roupas, alimentação, educação, lazer, podem ser citados como itens que compõem o pacote, mas há uma área que geralmente se destaca: A Saúde.

Seja pelo imediatismo que caracteriza algumas doenças agudas ou pela previsão das sequelas originadas por alguma patologia crônica, a busca pela cura ou pela redução do sofrimento daqueles que representam a nosso legado mais forte neste mundo faz com que mães e pais ajam de forma desesperada todos os dias, hora após hora, sem que percebamos.

Não lembro se ainda era estagiário ou já líder de equipe, mas recordo a fala de uma mãe após saber da morte de sua criança: “Se eu pudesse dava minha vida a ele. De que ela me servirá agora?”

Foi um dos momentos mais duros e reflexivos que a Enfermagem me proporcionou. Hoje tenho certeza de que sempre há dor maior que aquela que sentimos…

E é pensando nele que proponho a reflexão de hoje. Se já somos, por natureza, vulneráveis às doenças e acidentes, quando o acesso aos serviços de Saúde é limitado (por qualquer critério), criamos uma vulnerabilidade adicional para aqueles que ficam fora deste filtro. Quando esse critério é a grana, o cenário se torna ainda mais perverso.

Sabe aquele brinquedo novo, caro, cheio de tecnologia e propaganda? Apenas algumas crianças terão. Apenas aquelas cujos pais podem pagar por ele. Acontece que uma criança sem um brinquedo caro segue vivendo com todo o potencial de ser feliz, e com seus brinquedos baratos (muitas vezes até mais úteis para a sua criatividade, diga-se de passagem).

Mas nem sempre é assim. Se ao invés do brinquedo falarmos sobre uma vacina qualquer, o desfecho muda. Se dissermos que apenas as crianças pertencentes às famílias com alto poder aquisitivo poderão ter acesso à vacina contra Hepatite B, por exemplo, estaremos admitindo que todas as crianças pobres estarão duas vezes mais expostas: Uma vez por estarem vivas, e outra por não terem recursos financeiros para adquirirem uma tecnologia que as protegeria do adoecimento e da morte. Em outras palavras, a sociedade entenderia que as crianças pobres devem viver menos, por não poderem pagar por mais dias de vida.

E é assim com as consultas realizadas pelos diversos profissionais, com o medicamento e com aquele procedimento difícil de realizar: Quando a Saúde vira mercadoria, a vida humana ganha preço e código de barras.

No Brasil, a legislação do Sistema Único de Saúde tenta subsidiar a garantia da Saúde enquanto direito do cidadão, contrapondo-se à lógica dominante do mercado. Infelizmente, como muitos gestores e profissionais responsáveis pela manutenção do SUS lucram ou são reféns do mesmo mercado que deveriam enfrentar, o que é entregue à população brasileira está muito distante de ser aquilo preconizado no Decreto 7.508 de 2011.

Os avanços conquistados desde 1990 são evidentes, mas ainda não temos um sistema único, que dirá equânime e integral. Entretanto, os desafios e dificuldades identificados nas milhares de folhas e arquivos dos relatórios gerados e utilizados (?) no planejamento em Saúde apontam para caminhos que levem à solução dos problemas e não à extinção do SUS, como pensam alguns.

Se hoje temos o Programa Nacional de Imunização, modelo para diversos países para a redução de doenças imunopreveníveis, por que não seremos capazes de estruturar a Atenção Primária, ofertando qualidade e resolubilidade?

Se as ações de enfrentamento do HIV/AIDS daqui também são destaques no panorama mundial, por que não conseguiremos tratar adequadamente as pessoas com dengue, evitando os óbitos que ainda ocorrem?

É hora de reafirmarmos o Sistema Único de Saúde como política de Estado e patrimônio dos brasileiros. 2015 é um ano decisivo para frearmos um movimento que há muito tempo fragiliza os pilares do SUS para que retrocedamos à época em que a vida humana, por si, não merecia ser protegida;

É hora de refutarmos o discurso medíocre da “cobertura universal” e defendermos o Sistema Único de Saúde, como ele deve ser e ainda não é!

É hora de bradarmos e garantirmos, dentre outras coisas, que toda criança deve permanecer viva e saudável, independente da conta bancária de seus pais.

É hora de cobrarmos avanços e não retrocessos. Nenhum passo atrás!

One thought on “Quanto vale a vida de $eu filho? (Parte 1 de 2)”

  1. Parabéns Alex. Você como sempre nos faz refletir sobre questões relevantes e que poucos de dispõem a debater. Vamos sim lutar por um SUS de qualidade e com resolutividade.
    Bjos.

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