Crédito: morguefile.com

Responsabilidade de quem?

Reivindicar, protestar, bradar: Verbos e ações necessários ao pleno exercício da cidadania. Numa comunidade em que a diversidade de interesses é a tônica do cotidiano, a democracia dá espaço para gritos e bandeiras de todos os tipos.

Dentre eles, quais merecem atenção? Quantos são sensatos e quantos geram ondas de vergonha alheia? Que ideias prontas estão à disposição nos cardápios da grande mídia para a massa que se confunde e, às vezes, não é capaz de verbalizar numa simples frase que objetivo tem em mente?

Vivemos tempos difíceis no Brasil. Os problemas são muitos e há quem diga não haver solução. Insegurança, desonestidade, educação e saúde públicas desacreditadas, empresas privadas recordistas em reclamações por maus serviços prestados. A propaganda de coisas ruins é tão intensa que ficamos frustrados com a impressão de que nada neste país serve. Nem eu, nem você. Nada.

Isso não é verdade, óbvio. Basta pensarmos um pouco para relembrarmos que o volume de coisas boas acontecendo ao nosso redor é muito maior que os problemas que precisamos resolver. Sim, muitas dessas conquistas se devem à nossa intervenção direta, nos espaços que ocupamos. Quando um aluno aprende e é bem avaliado nos exames a que se submete; quando um cliente fica satisfeito com o produto adquirido e com o vendedor que o atendeu; quando alguém deixa de adoecer porque seguiu uma recomendação sua… Há vários exemplos por aí.

O desafio é fazer o seguinte exercício: Se somos responsáveis por coisas indubitavelmente importantes para as vidas de nossos semelhantes, qual a nossa participação na gênese dos nossos problemas? Nenhuma? “O inferno são os outros”? Atire a primeira pedra quem julga estar isento.

Falemos sobre os serviços de saúde. São comuns as queixas das pessoas que os utilizam, seja na esfera pública ou na iniciativa privada: Demora no atendimento, preços elevados das consultas ou da mensalidade dos planos, violência institucional e desinteresse dos profissionais que não se empenham em reduzir o sofrimento alheio.

Simultaneamente, profissionais reclamam dos salários, das condições de trabalho, dos patrões, dos gestores e de toda a macroestrutura que compõe o cenário.

Resumindo: Insatisfação é o que não falta, mas só ela não traz solução.

Quem reclama, está reclamando da melhor forma? Ouvidorias, Conselhos de Saúde, Ministério Público, COREN, CREMEB, etc. são acionados?

Por outro lado, os profissionais se organizam e provocam Sindicatos e Associações para que atuem por melhores condições de trabalho, ou a indignação se limita ao compartilhamento de figurinhas no facebook e no Whatsapp?

De que adianta apontar o erro do outro, patrão ou gestor, quando a cobrança de direitos não deixa espaço para o cumprimento dos deveres explícitos em Leis e Códigos de Ética? Como encarar a comunidade numa reunião do Conselho Municipal da Saúde, quando não olhamos nos olhos das pessoas de quem cuidamos, nos consultórios, nas escolas ou nas enfermarias?

É vergonhoso ler faixas pedindo a volta do Regime Militar? É. Mas que tipo de sentimento vem à tona, por exemplo, quando o número de crianças com sífilis congênita aumenta ao passo em que também aumenta o número de consultas realizadas no período Pré-Natal?

Será que foi apenas falta da penicilina? Será que todos os parceiros recusaram tratamento? Será que fazemos tudo o que está ao alcance da equipe? Por fim, será que documentamos o que foi feito, de modo que as falhas da gestão não sejam confundidas com erros dos profissionais?

 compara

Em tempos de cobranças, precisamos estar respaldados. Se é hora de reorganizar o país, que comecemos pelas nossas práticas: O SUS é patrimônio do brasileiro e nós temos o dever de fazê-lo funcionar melhor. Relembrando o artigo anterior, sabemos que não é fácil e por isso mesmo nossa participação é indispensável.

Comece agora. Quando você está satisfeito com algum serviço público, costuma elogiar as pessoas ou só se lembra da ouvidoria na hora de reclamar? Sejamos justos: Precisamos, sim, notificar os erros e exigir melhorias, mas isso não significa deixar de parabenizar o que dá certo.

Para os profissionais, uma dica: Fica mais fácil exigir direitos quando cumprimos nossas obrigações. Quando puderem fazer algo para o benefício da pessoa cuidada, façam. Quando não puderem, justifiquem. Se os gestores têm responsabilidades, nós também temos. Sobre isso, recomendo as palavras de Mario Sergio Cortella nessa entrevista.

Nosso poder é maior do que imaginamos. Abriremos mão dele?

 

 

One thought on “Responsabilidade de quem?”

  1. Colega Gesner muito boa a reflexão para este momento confuso do país. Penso como você, que muito podemos fazer na nossa esfera micro de ação e também é deixado. Até porque é mais fácil culpabilizar o outro quando podemos agir e cobrar cotidianamente nos espaços adequados. Vejo muita gente desacreditada, mas nem participa, nem aciona quem deve, apenas reclama. A mudança deve partir de cada um de nós, começando respeitando os nossos espaços de trabalho, cumprindo o que nos cabe, comparecendo ao serviço e colaborando para uma melhor assistência à saúde.

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