Concluída a leitura do livro 1808 de Laurentino Gomes, segue mais um post com a passagem mais interessante do livro em que retrata a saúde do Brasil Colônia da época, especialmente a caracterização do cenário sanitário da cidade do Rio de Janeiro, então capital da colônia, por onde tudo começou. Veja abaixo a transcrição da passagem do livro
Cap. 12 – O Rio de Janeiro – p. 164-166
[...] O calor associado à falta de higiene gerava problemas colossais na área de saúde. “O povo é muito sujeito a febres, a acessos de bile, ao que chamam de doença do fígado, à disenteria, à elefantíase e outras perturbações [...] que às vezes são violentas e fatais”, diagnosticou o inglês Luccock. “Também a varíola, quando surge carrega multidões, mas ultimamente seus estragos foram coibidos pela prática de vacinação.”28 Em 1798, dez anos antes da chegada da corte, a Câmara do Rio de Janeiro havia proposto a um grupo de médicos um programa para combater as epidemias e erradicar moléstias endêmicas da cidade. O plano incluía um levantamento dessas doenças. A relação, feita pelo médico da Armada, Bernardino Antônio Gomes, é espantosa: “Segundo a observação de quase dois anos, que conto de residência no Rio de Janeiro, tenho por moléstias endêmicas desta cidade, sarnas, erisipelas, empigens, boubas, morphéa, elefantíase, formigueiro, bicho dos pés, edemas de pernas, hidrocele, sarcocele, lombrigas, ernias, leuchorréa, dysmnorréa, hemorróidas, dispepsia, vários efeitos convulsivos, hepatites e diferentes sortes de febres intermitentes e remitentes.
Apoiados no parecer dos médicos, os vereadores levantaram a suspeita de o foco gerador de algumas dessas doenças epidêmicas, em especial a sarna, erisipela, bexiga (varíola) e tuberculose, eram negros recém-chegados da África. Sugeriram que o mercado de escravos fosse transferido da atual Praça 15 de Novembro para um local mais afastado. Julgando que os seus interesses seriam prejudicados, os traficantes reagiram e processaram a Câmara Municipal. Seguiu-se um embate jurídico que só terminou quando o vice-rei, marquês de Lavradio, tomou o partido dos vereadores e determinou a transferência do mercado de escravos para a região do Valongo, onde estava na época da chegada de D. João ao Brasil.30
Mais difícil do que diagnosticar a causa das doenças era combatê-la. Como em toda colônia, não havia no Rio de Janeiro médicos formados em universidades. Uma forma rudimentar de Medicina era praticada pelos barbeiros. Thomas O’Neill, tenente da Marinha Britânica que acompanhou D. João ao Brasil, ficou intrigado com o número de barbearias e os fins aos quais se destinavam: “As barbearias são aqui bastante singulares. O símbolo dessas lojas é uma bacia, e o profissional que aí trabalha acumula três profissões: dentista, cirurgião e barbeiro”31
O pesquisador carioca Nireu Cavalcanti encontrou no Arquivo Nacional documentos que ajudam a dar uma noção do que era a saúde e a medicina no Rio de Janeiro na época de D. João VI. São inventários post-mortem de dois médicos, que relacionavam os bens deixados pelos falecidos. Um deles, do cirurgião-mor Antônio José Pinto, falecido em 1798, inclui essa assustadora relação de “instrumentos cirúrgicos”: um serrote grande, um serrote pequeno, uma chave de dentes, duas facas retas, duas tenazes, uma unha de águia, dois torniquetes, uma chave inglesa e uma tesoura grande. O outro inventário, Antônio Pereira Ferreira, morto também em 1798, serve para dar uma idéia de como era o sortimento de uma farmácia da época. A lista inclui cascas, emplastros, fungos, minerais, óleos, raízes, sementes e um item chamado “animais e suas partes”, com “óleo humano”, “lixa de lagarto”, “olhos de caranguejos brutos”, “raspas de ponta de veado” e “dentes de javali”.32
A chegada da família real produziu uma revolução no Rio de Janeiro. O saneamento, a saúde, a arquitetura, a cultura, as artes, os costumes, tudo mudou para melhor – pelo menos para a elite branca que freqüentava a vida na corte. [...]
No próximo post, considerações sobre essa passagem do livro.

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