Espero que não me chamem de pessimista novamente, apenas estou compartilhando coisas que observo e que julgo estarem equivocadas ou nas entrelinhas. Pois bem, o blog o Médico e o Paciente estimulou a pensar sobre isso.
Li que a Comissão de Assuntos Sociais (CAS), aprovou no dia 9 de dezembro o Projeto de Lei da Senadora Maria do Carmo Alves que inclui, além das ações já asseguradas pelo SUS com relação ao combate ao câncer de mama, a pesquisa de biomarcadores para detecção precoce do tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil.
Mente curiosa a minha, busquei na internet o projeto de lei (PL nº 158 de 2009) para dar aquela olhada e fiquei um tanto perplexo com relação às justificativas apresentadas para aprovação do PL.
Numa das suas justificações, a legisladora afirma que um dos grandes problemas com relação à alta mortalidade no país em decorrência do CA de mama é que eles são descobertos tardiamente, já em estágios III e IV – ponto para ela -, ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos.
Continuando a leitura, afirma mais adiante que essa redução do número de casos de CA de mama nos países desenvolvidos acontece em função da evolução das áreas de genética e biologia molecular – outro ponto para ela.
Fico pensando em como a legisladora pode estar distante da realidade brasileira, da realidade dos serviços de saúde do nosso SUS. E, diferente do que fora dito no texto do seu PL, há sim uma política para detecção precoce do CA de mama no Brasil, o problema é que ela não é aplicada como deveria, assim como tantas outras. Figura nesse cenário também o uso de uma tecnologia como estratégia da política: a realização de mamografias.
A detecção do CA de mama apenas pelo autoexame perdeu seu papel protagonista nesse porque não consegue perceber nódulos menores de 1cm (estágio inicial), apesar de inda ser bastante importante. Por isso, uma das estratégias primordiais é a realização de mamografias anuais a partir dos 40 anos de idade. Esse é o único exame diagnóstico capaz de identificar o câncer quando ainda tem menos de 1cm.
Porém, não temos mamógrafos para atender toda população feminina do país que demanda aos serviços. Não temos profissionais capacitados para realizar os procedimentos mesmo quando existem máquinas. Pesquisa do INCA aponta que 77% dos exames foram rejeitados por problemas técnicos (qualidade da imagem ruim, posicionamento incorreto do paciente e uso errado dos aparelhos). Geraram até realização de biopsias equivocadas. O cenário é aterrador. (ver em Ser Mulher Inteligente)
E vejam, vale informá-los que até esse ano, as mamografias anuais só eram realizadas em mulheres a partir dos 50 anos. Isso foi alterado pela Lei 11.664/2008 que entrou em vigor a partir de abril de 2009 e passou a contemplar as mulheres a partir dos 40 anos. Pensem então no quanto esse volume aumentou e ainda aumentará.
Nessa perspectiva, as grandes perguntas são: como vamos inserir novas tecnologias no sistema sem que antes funcionem as já existentes? Como inserir tecnologias de base genética e molecular no serviço e não contemplar toda população? Onde ficam os princípios da universalidade e integralidade das ações, pilares do SUS?
Fico com a impressão de que há o deslumbramento pelo novo, pelo moderno, por fazer elevar o patamar dos serviços do país com a inserção de poderosas tecnologias, sem nem pensar em como ficará a conta e como as pessoas terão acesso a isso. Lembro que coisas mais simples (supostamente!), como fazer um raio-x ou um exame laboratorial, ganham em complexidade a depender da região e do município em foco. Avaliem então um exame genético para identificação de biomarcadores.
(Agora sarcástico…) Mas não se preocupem, essa é fácil, fácil de resolver! Vamos tornar o país mais desenvolvido, pois assim reduziremos os casos de câncer no Brasil. Isso está dito no PL!. Basta fazermos com que aquela mulher pobre, favelada, marginalizada, faça todo ano uma mamografia e um exame genético para detecção precoce de casos, que segundo o texto acomete mais os genes BRCA1 e BRCA2 (pegou essa????).
Fantástico essa hein? Além de reduzirmos o número de casos ainda elevaríamos o Brasil ao tão sonhado patamar de país desenvolvido. São de leis “concretas” como essa que o país está carente.
E sim, Senadora! Concordo com seu texto quando diz que “a genética promete ser o campo de batalha em que essas doenças encontrarão um inimigo capaz de derrotá-las.” Também sou a favor de incorporação de novas tecnologias ao sistema (sempre!), especialmente as de base genética. Apenas identifico que esse ainda é um cenário para os verdadeiros países desenvolvidos, com realidades bastante distintas das nossas, mas que serviram de base para a fundamentação das suas argumentações e justificativas.
Não somos um país desenvolvido, Senadora. Precisamos, antes de tudo, dar conta do dever de casa. Tem muita coisa pendente, por fazer, por ser aplicada. Vamos aumentar o acesso das mulheres as mamografias e dar a qualidade necessária para as análises serem realizadas com firmeza, com clareza. Creio que assim, os pontos, vão para as usuárias do SUS, para população do Brasil, país em desenvolvimento.

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