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    As duas faces do SUS

    Atenção Básica, comportamento, emergência, gestão da saúde, saúde, saúde coletiva, saúde pública 2 Comments

    logoFrequentemente descobrimos manchetes, ouvimos reclamações, lemos denúncias sobre o mau funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
    Filas longas para atendimentos, ausência de profissionais capacitados, baixa oferta de exames e procedimentos, manifestações trabalhistas com o objetivo de melhorar as condições dos serviços, etc.
    A mídia sensacionalista se aproveita destas mazelas e faz o maior barulho pelos canais de comunicação com a clara missão de evidenciar os problemas do processo sob o falso manto da “proteção social”.
    Um exemplo recente disto foi durante a pandemia da gripe A [H1N1]. Tivemos desde notícias denunciando a desestrutura dos serviços até insinuações de subnotificação proposital dos casos pelo Ministério da Saúde.
    No entanto, experiências exitosas do SUS não são tão “propagandeadas”. Os resultados positivos do Programa Nacional de Imunização (vacinas), do combate à AIDS, dos Serviços de Triagem Neonatal (Teste do Pezinho), dos bancos de sangue, dos transplantes e do SAMU, por exemplo, têm pouca visibilidade.

    A pergunta que eu faço a vocês é:

    Se o nosso SUS consegue funcionar bem em algumas áreas, por que erra tanto em outras?

    Sabemos que, no Brasil, o direito à saúde é de todos. Mas a maior parte dos pacientes atendidos no sistema público pertence às classes sociais menos favorecidas financeiramente. Daí tem gente que acha que o SUS é para pobres. Idiotice.

    Se você encontrar o Presidente Lula numa praça é capaz de reconhecê-lo. Mas você identificaria prontamente um Juiz do Supremo Tribunal Federal caso o encontrasse? Eu não. Mas sei que ele tem grana.
    Ok. Vamos supor que um iminente Juiz estava de férias na Bahia. Usando bermuda e camiseta, curtia o melhor verão de sua vida em Ilhéus. De repente, por um descuido, foi atropelado. Vendo-o ferido e inconsciente, os transeuntes já sabiam o que fazer: chamaram o SAMU. Rapidamente o Juiz foi levado à Emergência do Hospital Público mais próximo. Atendido, recuperou-se bem e já estava fora de perigo quando foi transferido ao hospital privado que seu plano de saúde particular indicou. Ele não era pobre e utilizou o SUS.

    Suposição dois: Numa cidade bem longe dali, noutro estado, um grande empresário extremamente rico adoeceu (percebam que não é o Juiz!). Visitou os melhores médicos da região, sempre pagando altas quantias em clínicas particulares porque não precisava usar a “medicina dos pobres”. Diagnóstico nosológico: tuberculose pulmonar. Sabem onde ele precisou ser acompanhado para receber os medicamentos? Numa unidade de PSF – SUS. Mas não acabou por aí. Os profissionais da Equipe de Saúde da Família prosseguiram a investigação e descobriram que além de tuberculose ele tinha AIDS. E sabem quem disponibilizou o tratamento contra a AIDS? Isso mesmo. O SUS.

    Dá pra perceber que as pessoas mais abastadas tendem a usar o SUS apenas em situações mais caras (quando seus planos privados caem fora da brincadeira), quando não podem escolher outro tipo de assistência ou quando não há outra fonte para aquele suprimento/serviço. Nas consultas de rotina, elas se orgulham em dizer que pagaram caro nas clínicas particulares ou aos planos de saúde.

    O pobre, não. O brasileiro pobre usa o SUS de A a Z. Usa o que ele tem e fica na falta quando o SUS não tem. O problema é que o pobre, em termos gerais, não exige e não sabe reclamar. Aceita quase tudo como obra de caridade. Falta-lhe o conhecimento dos próprios direitos. Não por ser pobre, em si. Mas porque não teve uma educação formal de qualidade. E é nisso que pesa a diferenciação das coisas.

    Quando um usuário do SUS que tem boa escolaridade procura uma unidade pública, seja qual for o motivo, e percebe que não foi bem atendido ou identifica algo fora dos padrões mínimos de segurança ou higiene, reclama. Reclama e exige. E tem que ser assim. Não estou dizendo que é permitido insultar o recepcionista ou o Auxiliar de Enfermagem com voz em volume alto citando a famigerada frase: “Nada público funciona!”. Não é isso que estou pedindo.
    É preciso procurar o responsável pela unidade assim como se procura o gerente de uma loja quando seu celular vem com defeito. Comunica-se o problema e buscam-se soluções. Se possível, por escrito. Este documento iniciará um efeito cascata: o profissional pressionado na assistência deverá pressionar seu superior hierárquico. Este, por sua vez, ou resolve o caso ou pressiona o gestor. E nesta sequência, alguma coisa acaba mudando: Ou o problema se resolve ou fica evidente a incompetência do setor responsável. Simples assim.

    Em 20 anos de SUS, observamos inúmeros avanços. Observamos também que quanto mais avançamos, mais descobrimos demandas a serem atendidas. Faz parte do jogo.
    E nesse jogo, reivindicar é condição indispensável para a evolução. Se o rico (mais esclarecido) usa o SUS na hora de uma emergência, no tratamento contra AIDS e no transplante de órgãos, é esperado que estas áreas se desenvolvam melhor porque os investimentos dos governantes não seguem a lógica da equidade: A melhoria dos setores é diretamente proporcional ao poder aquisitivo das pessoas que os utilizam.

    Se o rico usasse plenamente a unidade básica, veríamos mais qualidade nela também. Como os ricos não descerão de seus pedestais, qual a estratégia para fortalecer a atenção primária? Municiar os usuários do SUS (principalmente os menos favorecidos) com conhecimentos sobre legislação sanitária, instrumentalizando os Conselhos de Saúde.

    Se a questão é aprender a cobrar, controle social neles!

    Publicado por Alexandro Gesner @ 20:26

    Tags: meios de comunicação, sistema de saúde, SUS

  • 30set

    O caso brasileiro do H1N1 e o sensacionalismo dos meios de comunicação

    epidemiologia, saúde, saúde coletiva 1 Comment

    abcQueria escrever esse post há algum tempo, mas só agora conseguir achar números que embasam a minha perspectiva de que os meios de comunicação estão tratando a epidemia do H1N1 de uma forma não verdadeira e sensacionalista.

    Fiquei intrigado quando vi na TV, jornais afirmarem que o Brasil era o país com o maior número de óbitos por consequência da Gripe A. No momento, perplexo, não entendi a situação pois o Brasil não havia sido um dos países em que a epidemia havia alastrado-se ferozmente, caso da Argentina ou dos Estados Unidos, por exemplo. Percebi no momento que havia algo de sensacionalista no ar e logo fiquei revoltado com a situação.

    Mais tarde, já no início de agosto, mais precisamente no dia  11, o Ministro da Saúde José Temporão foi à Câmara de Deputados realizar esclarecimentos sobre a epidemia do H1N1 no Brasil e apresentou números interessantes. Mostrou para os ilustres deputados que a taxa de mortalidade no Brasil era de 0,09 por 100mil habitantes, taxa menor do que a americana de 0,14 por 100 mil habitantes. (Fonte: Revista RADIS  Setembro 2009)

    Ora. É evidente que por mais falhas que o sistema de saúde público brasileiro apresente (e eu sou um dos críticos), nosso modelo é muito superior a de países com sistemas de saúde desorganizados e pouco acessíveis às camadas mais pobres da população. Claro e evidente que as ações de controle da epidemia do H1N1 seriam dadas com a seriedade que a situação exige em nosso país.

    Agora, o que não é correto e desleal para com o povo brasileiro são os meios de comunicação em geral, até de forma irresponsável, veicular notícias, números e informações epidemiológicas sobre o H1N1 no Brasil sem estabelecer os parâmetros necessários para a devida análise, jogando com a falta de informação e compreensão do povo brasileiro.

    Foram criados e divulgados inclusive rankings de óbitos entre os países, desconsiderando-se as diferenças populacionais, analisando os números de forma fria e bruta. Dessa forma, o Brasil assumia lugar de destaque como campeão mundial em números de óbitos pelo H1N1.

    Ora, não dá para comparar uma formiga com um elefante. Dizer que morreram 100 pessoas na Venezuela é muito mais impactante do que se morrerem os mesmos 100 no Brasil. É preciso considerar epidemiologicamente as dimensões dos dois países e principalmente a estúpida diferença populacional. Análises e comparações desse tipo são enviesadas e expõem o real objetivo de quem as divulga: causar tumulto e gerar notícia.

    É preciso ter seriedade na divulgação das informações e antes de tudo observar que conseqüências acarretarão no cenário em que serão veiculadas. Não se deve inclusive jogar com a falta de conhecimento da população em geral, ademais, as pessoas não são obrigadas a deter todo tipo de conhecimento.

    Sei que temos os meios de comunicação de credibilidade no mercado, assim como temos os ruins e sensacionalistas. É preciso saber separar o joio do trigo e filtrar aquilo que realmente vale na informação, desvinculado do interesse e objetivos de quem as divulgam.

    Publicado por Wagner Alves @ 10:05

    Tags: epidemiologia, Gripe A, H1N1, meios de comunicação, sensacionalismo

   

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