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    Cenas do cotidiano (01): exames

    Cotidiano 2 Comments

    Resolvi agora que vou postar os debates do dia-a-dia por aqui.

    Estava conversando com um amigo, revoltadíssimo. Vejam a cena. Ele apresentava sérios problemas de mobilidade dos membros superiores e dores insuportáveis na coluna, mais especificamente na cervical. O desconforto já irradiava pelos seus membros e começava a afetar a parte respiratória, alterando o ritmo das suas incursões.

    Procurou um neurologista com urgência para realizar seu acompanhamento. Eis que no consultório, ele solta a pérola: havia sofrido uma queda importante há alguns dias, sendo a cervical uma das áreas mais comprometidas e traumatizadas nesse evento.

    Seu médico, então, passou a suspeitar de uma possível herniação na área com compressão medular que poderia estar causando os referidos sintomas. Para confirmação diagnóstica, veio então o pedido: RESSONÂNCIA MAGNÉTICA.

    O amigo, que não possuia a “comodidade” de um plano de saúde, contava apenas com o PlanSUS, teve que peregrinar para conseguir vaga e autorização para realização do exame. Sua angústia aumentava, o tempo passada, nada conseguia. Seus sintomas pioravam, ele somatizava e já passava a apresentar outros sinais, muito mais em decorrência do anseio da espera que propriamente vinculado ou relacionado com a possível área lesada.

    Apelou, então. Teve que tomar alguns empréstimos e fazer um levantamento financeiro que fosse suficiente para pagar os R$ 1200,00 (sim, você leu hum mil e duzentos reais) que lhe desse a “oportunidade” de realizar seu exame de forma rápida e eficiente. Já sofrido pelo débito então contraído, teve ainda de suportar permanecer imóvel por mais de 50 minutos num aparelho que “só fazia zuada em seus ouvidos” (ipsis litteris).

    Ávido pelo retorno ao seu médico, passou a pensar sobre as mais variadas hipóteses patológicas que poderiam estar o acometendo naquele momento ou das quais fosse um candidato em eleição. Abriu seu exame, via, via, lia, lia, mas nada entendia. Foi para internet aumentar ainda mais sua tensão. Dr. Google dizia coisas que iam desde uma correção cirúrgica até a possiblidade de paraplegia e óbito.

    Ele era um poço de estresse. E seus sintomas pioravam, outros até surgiam. E não conseguia entender a relação que havia entre eles.

    Consulta marcada, ele aparece uma hora antes do horário previsto. E, como vocês pensam que apenas médicos do SUS se atrasam, nesse consultório particular, teve que esperar por três horas e meia para enfim ser chegado seu o momento. Seu médico pegou logo seu exame, observava aquela tela preta no negatoscópio que nada lhe dizia e ficava ainda mais angustiado enquanto seu médico lia o laudo do perito e balançava a cabeça fazendo “umrum, umrum”.

    Chegado o clímax, eis o diálogo então travado:

    • Seu médico: tenho uma notícia boa e outra ruim. Qual você quer primeiro?
    • O paciente: a ruim, lógico!
    • Seu médico: seus exames indicam que você passa por um período de estresse tremendo.
    • O paciente: (com cara “de que grande novidade”) eu sei doutor, eu sei!
    • Seu médico: mas a notícia boa é que seu exame não deu nada!
    • O paciente: Não deu nada?????? (espanto)
    • Seu médico: sim, não deu nada! Não há nenhuma lesão de cervical, seus sintomas são puramente de cansaço e estresse
    • O paciente: QUE DROGA!
    • Seu médico: (surpreso) não gostou da notícia?
    • O paciente: Doutor, você sabe quanto custou esse exame? Você faz idéia do que eu passei para esse exame não dar nada!!!
    Um abraço ao amigo revoltado. Obrigado pela “divertida” história. Você ainda vai compreender que seu exame não ter dado “nada” é um bom sinal.

    Publicado por Wagner Alves @ 18:04

    Tags: Cotidiano, exames, neurologista, paciente, ressonância magnética, resultado

  • 18mar

    Medicamentos 02: As demandas do Ministério Público

    Medicamentos 1 Comment

    Dando o continuidade aos post´s temáticos sobre Medicamentos. Tem muito a ser dito sobre medicamentos, especialmente na área da saúde pública.

    Vou começar falando daquelas medicações que não fazem parte do “elenco básico” de medicamentos disponíveis na rede pública e que por vezes causam grandes problemas ao serviço, à gestão e principalmente ao paciente.

    Observo que é uma crescente o número de demandas judiciais para garantir o fornecimento de alguns medicamentos. Constatações empíricas indicam uma relação do fato com problemas na logística desses medicamentos, no uso irracional e distribuição dessas drogas, nas prescrições desgarradas da realidade da assistência farmacêutica local, na complexidade dos casos que exigem insumos compatíveis ao tratamento (as vezes não existentes na rede) e relações até com a satisfação do trabalho do profissional (especialmente os prescritores) e da compreensão dos pacientes (ou da falta de informação).

    No momento em que um paciente procura um serviço de saúde é porque ele precisa de uma “resposta” para algo que o incomoda, que o aflige e afeta diretamente a sua qualidade de vida e saúde. Tudo bem que nem sempre é assim, mas a maioria dos pacientes do SUS procura serviços “resolutivos” e a prescrição de um medicamento quase sempre provoca a sensação de satisfação e de “qualidade” desses serviços.

    Isso chega a ser alvo de piadas na população em geral. Para muitos, profissional de saúde bom é aquele que passa remédios e exames, o resto é balela.

    Por outro lado, o paciente quando de posse de uma prescrição, a famosa receita, fará de tudo para conseguir o seu medicamento atribuindo a essa aquisição importância tal qual a manutenção de sua vida (o que na maior parte dos casos realmente é). Exageros à parte, quem é profissional de saúde e/ou já trabalhou na gestão de serviços públicos de saúde sabe bem do que estou falando. Por vezes o sujeito não tem nada de complexo, sai dos consultórios com uma receita de vitaminas e moverá céus e terras para conseguir o seu medicamento.

    Convém dizer que no nosso sistema de saúde público, boa parcela dos medicamentos já são distribuídos no ato da prescrição. Muitas unidades de saúde possuem em sua estrutura unidades de dispensação de medicamentos, em outras localidades, fica por conta da Assistência Farmacêutica garantir a forma como esse insumo vai ser fornecido, a sua logística e como acontecerá o contato com o público.

    Mas, e quando o remédio prescrito não existe no chamado “elenco básico de medicações”?

    E pior ainda, quando os indivíduos não têm grana para comprar! Aí começa o martírio. Deslocam-se até as secretarias de saúde, assistência farmacêutica ou outros órgãos de gestão do sistema para pedir o seu remédio e garantir o seu direito. São submetidos a situações esdrúxulas de humilhação para ter salvaguardado um direto que é seu, garantido e reafirmado pelos Pactos de Gestão, pela Vida e em Defesa do SUS mais recentemente.

    Muitos pacientes são literalmente enrolados, não conseguem suas medicações. Outros fazem verdadeiros “barracos” e têm como última alternativa a procura do Ministério Público para forçosamente “obrigar” a gestão pública comprar e fornecer o insumo.

    Essa via alternativa está em vertiginosa ascensão nos Estados e municípios. Se por um lado, garante o direito do cidadão, por outro, desorganiza o sistema, pois as demandas são variadas e de fontes diversas. Tem muitas pessoas que são atendidas em serviços particulares e encaminham demandas de compra via MP das suas receitas.

    Essas compras de medicações não programadas, tem causado também forte impacto financeiro nas gestões municipais e criado um clima desagradável de disputa entre os governos municipais e Estaduais para ver quem arca com a conta.

    Enquanto isso, o “elenco básico” básico de medicações vai tornando-se obsoleto. Muitos profissionais já não querem prescrever uma penicilina já que o paciente pode conseguir uma azitromicina (exemplo banal e fictício de como as coisas acontecem).

    Ou seja, porque andar de Fusca se o sujeito pode brigar por uma Ferrari? (acho que essa analogia foi pior ainda rsrs).

    Alguns profissionais têm reclamado da listagem dos insumos ditos básicos. Afirmam que há patologias mais complexas e novos tratamentos medicamentosos que surgem constantemente, mas que as mudanças dentro dos serviços não acompanham a evolução da indústria farmacêutica. E isso tem limitado a ação profissional e reduzido o leque de opções para tratamento de patologias.

    Conversando com um médico amigo meu, ela categoricamente afirma e defende a tese que a culpa das piadas com relação aos médicos sempre prescreverem a mesma coisa é boa parte dessa situação e limita-se sempre a um analgésico, um antiinflamatório, uma antibiótico e uma vitamina de quebra (sic). Há quem diga ao contrário, mas, essa é uma discussão para outro momento. (rs)

    Sei que a situação é deveras complicada. Discussões e reorganizações dos serviços devem acontecer e permitir que as pessoas tenham acesso aos medicamentos como parte complementar da assistência que recebem nos serviços e assim torná-los mais resolutivos. E os usuários mais satisfeitos.

    É mais do que hora de envolver o MP nessas discussões e fazê-los entender as dificuldades de todos os lados (dos usuários, dos profissionais e da gestão do sistema), ainda que isso não exima em hipótese alguma a responsabilidade dos organismos de gestão do Sistema Único.

    O que não espero é que mais uma vez o usuário do serviço fique tolhido de ter acesso ao seu remédio (ainda que estejam listados ou não no elenco básico) e nem tenha que pagar a conta por isso. Já bastam nossos absurdos impostos.

    Publicado por Wagner Alves @ 17:52

    Tags: assistência farmacêutica, elenco básico, gestão, Medicamentos, Ministério Público, MP, paciente, profissional de saúde, SUS

   

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