- Por que você não troca esse celular?
- Pra quê? Tá funcionando.
- Porque está velho! Você não comprou ano passado? Tem que trocar…
Assim são muitos comentários que ouvimos diariamente. Um anseio pelo novo invade nosso cotidiano, nossas escolhas. É o ano novo, o sapato novo, o computador novo, a TV nova, a mesa nova. Em tempos de vínculos trabalhistas precarizados também tem, repentinamente, o emprego novo (quando há).
Que importa se as funções do celular novo não serão utilizadas? Se você não sabe pra que serve o Bluetooth ou se 1 terabyte é demais para um disco rígido de uso esporádico. Não importa. O importante é a substituição, é ter o novo, mais bonito, mais “apresentável”, mais modinha. A “obsolescência programada” é uma realidade. O ser humano está desaprendendo a lidar com o velho, com o antigo. Faça um teste. Convide um adolescente a visitar um museu. Mas não se chateie se a resposta for: “Tem nenhum lugar mais animado pra ir, não?”
Consequentemente, como as pessoas estão cada vez mais “coisificadas”, não são raros o novo namorado, o novo melhor amigo, o novo casamento. Só não tem novo pai, nova mãe… As relações humanas tornaram-se superficiais, efêmeras, trazendo à tona um questionamento interessante: você pode jogar as coisas velhas no lixo. E as pessoas? Como estamos tratando os nossos idosos?
“A população brasileira está envelhecendo. Já são mais de 10 milhões de brasileiros com mais de 65 anos e a previsão é de que esse crescimento se acelere. Com o avançar da idade aumentam os riscos de várias doenças, portanto é necessário redobrar os cuidados para viver a Terceira Idade com muita saúde”. (www.portaldoenvelhecimento.org.br)
O envelhecimento populacional no Brasil é fato. Diante disso, governo e comunidades científicas unem esforços para sensibilizar profissionais e demais cidadãos quanto à necessidade de adequar serviços e rotinas à população idosa. O aprimoramento dos sistemas de notificação e combate à violência contra o idoso é ponto de pauta em diversos fóruns mas o Estatuto do Idoso, publicado em 2003, ainda não é respeitado como deveria.
Será que as famílias brasileiras estão estruturadas e preparadas para cuidar dos seus idosos? As redes de atenção à saúde da pessoa idosa na sua região estão articuladas? Há profissionais suficientes? Quantas Instituições de Longa Permanência de Idosos (ILPI) você conhece? Estão elas de acordo com as normas vigentes (de Vigilância Sanitária, inclusive)? Cada interrogação rende outro artigo. Pense nisso.
Em 2011 ainda tem mãe que amedronta a criança dizendo que, se ela não parar de chorar, o “velho do saco” vem pegar. Ora, se uma criança aprende cedo que o famigerado bicho-papão é um velho sequestrador que leva guris num saco, o primeiro sentimento associado aos idosos estranhos ao seu círculo familiar é medo, não respeito.
É preciso reconhecer que proteger os idosos, oferecer-lhes dignidade e qualidade de vida, prescinde de capacitação formal. Todos nós temos o dever moral de defender as testemunhas dos fatos que foram os pilares do nosso presente. Os nossos “velhos” são os nossos conselheiros, porque já erraram muito do que insistimos em errar hoje. Erramos porque, tolos, recusamo-nos a ouvi-los. Lembremo-nos disso nas próximas filas dos bancos, supermercados, etc.
E quanto às crianças? Vamos extinguir o “velho do saco”. Que elas aprendam, o quanto antes, que os idosos são elas mesmas, amanhã.
Para refletir: http://www.youtube.com/watch?v=R64CFPjsQ_A


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