Calendário

fevereiro 2012
S T Q Q S S D
« jan    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
272829  

Categorias

  • Mais uma festa do Sistema Único de Saúde se aproxima. Estou me referindo à 14ª Conferência Nacional de Saúde, a ser realizada de 30 de novembro a 04 de dezembro de 2011, em Brasília.

    O Sistema Único de Saúde é uma conquista da sociedade brasileira. Ele é fruto da luta por um sistema de saúde que atenda a toda a população, sem nenhum tipo de discriminação. Hoje, o SUS é a maior política de inclusão social existente no País.

    Esta citação do Conselho Nacional de Saúde, estampada no site da Conferência, traduz o sentimento de pertencimento que deve ser mantido por nós, quando o assunto é SUS. É hora de comemorar os avanços, brindar as conquistas e direcionar mudanças que se convertam em avanços e conquistas ainda maiores. É hora de propor estratégias que garantam o acesso e o acolhimento com qualidade nos serviços do Sistema Único de Saúde.

    Com o tema “Todos usam o SUS: SUS na Seguridade Social, Política Pública e Patrimônio do Povo Brasileiro”, a Nacional está sendo construída tendo como alicerces os debates das Conferências Estaduais e Municipais ocorridas em todo o território brasileiro.

    Os objetivos da 14ª Conferência Nacional, conforme seu regimento, são:

     I – impulsionar, reafirmar e buscar a efetividade dos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) garantidos na Constituição Federal e na Lei Orgânica da Saúde, na perspectiva do fortalecimento da Reforma Sanitária;

    II – avaliar o SUS e propor condições de acesso à saúde, ao acolhimento e à qualidade da atenção integral;

    III – definir diretrizes e prioridades para as políticas de saúde, com base nas garantias constitucionais da Seguridade Social, no marco do conceito ampliado e associado aos Direitos Humanos; e

    IV – fortalecer o Controle Social no SUS e garantir formas de participação dos diversos setores da sociedade em todas as etapas da 14ª Conferência Nacional de Saúde.

    Fica clara, portanto, a imprescindibilidade da participação social em todo o processo: Não existe SUS sem controle social, sem Conselhos de Saúde. Porém, é preciso que esses Conselhos sejam de fato representativos; será que a sociedade brasileira, assim como em outras esferas eletivas, sabe se fazer representar em instâncias locais importantes como os Conselhos Municipais de Saúde?

    Você, leitor, é capaz de informar qual entidade lhe representa no Conselho Municipal de Saúde da sua cidade? Vou além… você já participou de alguma reunião deste Conselho?

    Sugiro que pensemos sobre isso hoje: depois de tanta luta popular por um Sistema Único de Saúde participativo, por que deixamos de lado o direito de opinar, conhecer e construir essa política tão importante para nosso povo?

    Como provocação, deixo algo que ouvi, não sei mais de quem, mas achei bastante oportuno:

    “Muitas pessoas não assumem responsabilidades na construção de algo coletivo por um único motivo: ser pedra é fácil… difícil é ser vidraça.”

    Tags: , , ,

  • TELEFONEMA DO SUS

    O telefone toca e a dona da casa atende:

    - Alô!- Sra. Silvia, por favor.

    - É ela.

    - Aqui é Dr. Arruda do Laboratório. Ontem, quando o  médico enviou o  exame do seu marido para o laboratório, um exame de um outro Sr. Silva chegou  também e agora não sabemos qual é do seu marido e infelizmente, os resultados são ambos ruins…

    - O que o senhor quer dizer?

    - Um dos exames deu positivo para Alzheimer e o outro deu  positivo para AIDS. Nós não sabemos qual é o do seu marido.

    - Nossa! Vocês não podem repetir os exames?

    - O SUS somente paga esses exames caros uma única vez por paciente.

    - Bem, o Senhor me aconselha a fazer o quê?

    - O SUS aconselha que a senhora leve seu marido para algum lugar bem longe da sua casa e o deixe por lá. Se ele conseguir achar o  caminho de volta, não faça mais sexo com ele.

     

    Melhor rir para não chorar hein!

    Tags: , , , , ,

  • Peguei no TRETA! ;)

    Tags: ,

  • Dando o continuidade aos post´s temáticos sobre Medicamentos. Tem muito a ser dito sobre medicamentos, especialmente na área da saúde pública.

    Vou começar falando daquelas medicações que não fazem parte do “elenco básico” de medicamentos disponíveis na rede pública e que por vezes causam grandes problemas ao serviço, à gestão e principalmente ao paciente.

    Observo que é uma crescente o número de demandas judiciais para garantir o fornecimento de alguns medicamentos. Constatações empíricas indicam uma relação do fato com problemas na logística desses medicamentos, no uso irracional e distribuição dessas drogas, nas prescrições desgarradas da realidade da assistência farmacêutica local, na complexidade dos casos que exigem insumos compatíveis ao tratamento (as vezes não existentes na rede) e relações até com a satisfação do trabalho do profissional (especialmente os prescritores) e da compreensão dos pacientes (ou da falta de informação).

    No momento em que um paciente procura um serviço de saúde é porque ele precisa de uma “resposta” para algo que o incomoda, que o aflige e afeta diretamente a sua qualidade de vida e saúde. Tudo bem que nem sempre é assim, mas a maioria dos pacientes do SUS procura serviços “resolutivos” e a prescrição de um medicamento quase sempre provoca a sensação de satisfação e de “qualidade” desses serviços.

    Isso chega a ser alvo de piadas na população em geral. Para muitos, profissional de saúde bom é aquele que passa remédios e exames, o resto é balela.

    Por outro lado, o paciente quando de posse de uma prescrição, a famosa receita, fará de tudo para conseguir o seu medicamento atribuindo a essa aquisição importância tal qual a manutenção de sua vida (o que na maior parte dos casos realmente é). Exageros à parte, quem é profissional de saúde e/ou já trabalhou na gestão de serviços públicos de saúde sabe bem do que estou falando. Por vezes o sujeito não tem nada de complexo, sai dos consultórios com uma receita de vitaminas e moverá céus e terras para conseguir o seu medicamento.

    Convém dizer que no nosso sistema de saúde público, boa parcela dos medicamentos já são distribuídos no ato da prescrição. Muitas unidades de saúde possuem em sua estrutura unidades de dispensação de medicamentos, em outras localidades, fica por conta da Assistência Farmacêutica garantir a forma como esse insumo vai ser fornecido, a sua logística e como acontecerá o contato com o público.

    Mas, e quando o remédio prescrito não existe no chamado “elenco básico de medicações”?

    E pior ainda, quando os indivíduos não têm grana para comprar! Aí começa o martírio. Deslocam-se até as secretarias de saúde, assistência farmacêutica ou outros órgãos de gestão do sistema para pedir o seu remédio e garantir o seu direito. São submetidos a situações esdrúxulas de humilhação para ter salvaguardado um direto que é seu, garantido e reafirmado pelos Pactos de Gestão, pela Vida e em Defesa do SUS mais recentemente.

    Muitos pacientes são literalmente enrolados, não conseguem suas medicações. Outros fazem verdadeiros “barracos” e têm como última alternativa a procura do Ministério Público para forçosamente “obrigar” a gestão pública comprar e fornecer o insumo.

    Essa via alternativa está em vertiginosa ascensão nos Estados e municípios. Se por um lado, garante o direito do cidadão, por outro, desorganiza o sistema, pois as demandas são variadas e de fontes diversas. Tem muitas pessoas que são atendidas em serviços particulares e encaminham demandas de compra via MP das suas receitas.

    Essas compras de medicações não programadas, tem causado também forte impacto financeiro nas gestões municipais e criado um clima desagradável de disputa entre os governos municipais e Estaduais para ver quem arca com a conta.

    Enquanto isso, o “elenco básico” básico de medicações vai tornando-se obsoleto. Muitos profissionais já não querem prescrever uma penicilina já que o paciente pode conseguir uma azitromicina (exemplo banal e fictício de como as coisas acontecem).

    Ou seja, porque andar de Fusca se o sujeito pode brigar por uma Ferrari? (acho que essa analogia foi pior ainda rsrs).

    Alguns profissionais têm reclamado da listagem dos insumos ditos básicos. Afirmam que há patologias mais complexas e novos tratamentos medicamentosos que surgem constantemente, mas que as mudanças dentro dos serviços não acompanham a evolução da indústria farmacêutica. E isso tem limitado a ação profissional e reduzido o leque de opções para tratamento de patologias.

    Conversando com um médico amigo meu, ela categoricamente afirma e defende a tese que a culpa das piadas com relação aos médicos sempre prescreverem a mesma coisa é boa parte dessa situação e limita-se sempre a um analgésico, um antiinflamatório, uma antibiótico e uma vitamina de quebra (sic). Há quem diga ao contrário, mas, essa é uma discussão para outro momento. (rs)

    Sei que a situação é deveras complicada. Discussões e reorganizações dos serviços devem acontecer e permitir que as pessoas tenham acesso aos medicamentos como parte complementar da assistência que recebem nos serviços e assim torná-los mais resolutivos. E os usuários mais satisfeitos.

    É mais do que hora de envolver o MP nessas discussões e fazê-los entender as dificuldades de todos os lados (dos usuários, dos profissionais e da gestão do sistema), ainda que isso não exima em hipótese alguma a responsabilidade dos organismos de gestão do Sistema Único.

    O que não espero é que mais uma vez o usuário do serviço fique tolhido de ter acesso ao seu remédio (ainda que estejam listados ou não no elenco básico) e nem tenha que pagar a conta por isso. Já bastam nossos absurdos impostos.

    Tags: , , , , , , , ,

  • Essa vou escrever em consideração a um amigo que recebeu uma proposta tentadora: ser Secretário de Saúde de um município.

    Que situação desafiadora hein! Logo quando soube, passou um filme na minha cabeça fruto de vivências anteriores e fiquei a pensar se era essa realmente uma boa proposta.

    Vejam, ser Secretario de Saúde de um município, antes de mais nada, faz bem ao ego. E não me venham com essa de “poço de humildade” e dizer que não é bem assim. Um convite para assumir uma pasta tão importante num município é a certeza de que a pessoa está sendo apreciada pelas suas qualidades, pelos seus potenciais, pelo seu senso de responsabilidade e seriedade ante o trabalho. Vamos combinar que em alguns municípios a coisa não se desenrola dessa forma, mas “vá lá”, ninguém nos dias de hoje quer colocar um Zé Ninguém para chefiar o setor do município, que junto com a educação, é visto como a “galinha dos ovos de ouro”.

    Sim, a saúde é um dos setores mais importantes de uma administração municipal. Lida com um sem número de pessoas, movimenta montantes de recursos materiais e financeiros que vão pela casa dos sete dígitos e, acima de tudo, lida diretamente com vidas. A saúde não pode dar-se ao luxo de descansar. Seus trabalhadores operam 24 horas por dia a garantir que bons serviços sejam prestados à grande massa populacional dependente dos recursos do SUS.

    Destaco ainda que estar a frente de uma secretaria como essa, traz ainda mais vislumbre pela possibilidade de mudança, transformação. Sabe aquelas idéias miraculosas que temos no tempo de estudantes, a simplicidade como vemos soluções já como operários do sistema ou daquelas críticas que formulávamos quando víamos que a administração dos serviços podia ser diferente? Pois é, agora mais do que nunca, enquanto representante da pasta, elas deixam de ser abstratas. Ganham cor, forma, materializam-se, tornam-se agora palpáveis e passam a incomodar muito mais como gestores. É como se dizem por aí: virar vidraça!

    Ser gestor da saúde também é ter poder, outra característica inegável e porque não dizer a mais importante delas. Através dessa força, pode-se tirar do campo da imaginação tudo aquilo que antes figurava apenas como uma simples idéia para gerir esse poderoso sistema. A sua aplicação é que determinará como as relações de trabalho acontecerão e a ampliação dessa força está intimamente atrelada à capacidade de articulação daquele que se arvorou ao cargo. Diria ainda que é a mais tentadora das “ferramentas” que vêm agregadas e que muitas vezes ofuscam e desvirtuam. Ela com certeza pode modificar o caráter das pessoas. Tão oportuna é nesse momento a máxima de que para se conhecer verdadeiramente uma pessoa basta que lhe dêem a força, o poder.

    São essas apenas algumas características que quando bem direcionadas, podem fazer maravilhas e transformar para melhor o cenário de saúde de um município.

    Mas, nem tudo são maravilhas sempre!

    Infelizmente as boas administrações municipais das secretarias de saúde são a exceção, e não a regra. Nem sempre as melhores pessoas são selecionadas para assumir esses cargos e por vezes são obscuros esses processos de escolha. Muitos interesses particulares estão em jogo nesse momento. Quem nos dera que o critério de seleção dos secretários de saúde e dos demais cargos da estrutura fossem todos realizados com grande peso para a bagagem técnica do profissional e sua capacidade de trabalho.

    As políticas partidárias infectaram esses sistemas de escolha para o qual não conseguimos remédios. Não fazem distinção do que é partidário e do que é político. Emperram aspectos técnicos ou nem sequer os consideram, desde que os interesses do minoritário grupo sejam atendidos, quase sempre em detrimento dos interesses de toda uma população.

    Pior ainda é a situação quando são convencidas pessoas de caráter ilibado, éticas e de grande capacidade, para assumir o cargo de secretário de saúde num local onde co-existem pessoas ruins de trabalho, com interesses particulares e até contrários as novas propostas que chegam.

    Boas pessoas não conseguem conviver num cenário tão tenebroso. O Brasil a cada dia dá mais e mais indícios que as práticas ilícitas já convivem num ambiente de normalidade entre as pessoas. Tornou-se habitual o roubo, a libertinagem, a malversação do patrimônio público e a impunidade perante os casos que cada dia mais assombram aqueles que procuram seguir suas vidas sob princípios morais, éticos e de honestidade. É tão esquisita e esdrúxula a situação que confunde a cabeça das pessoas, sobretudo daqueles que estão em formação do seu caráter.

    Além disso, os desafios deixam de ser enfrentados no espaço do trabalho e invadem o campo pessoal. Passam a afetar justamente os princípios que essas “boas pessoas” procuram preservar e podem criar rótulos, estereótipos ruins e que balançam a estrutura do ser humano. Alguns, para tentar conseguir avanços, são prostituídos. Terminam cedendo a pressões, optam pela conivência com ações que ferem a moral e os bons costumes. E olhe, o fato de apenas fechar os olhos ao que se passa, também configura uma conivência, configura, portanto, cumplicidade.

    São realmente imensas as tentações. Uns terminam cedendo aos maus vícios e práticas do sistema. Outros, por não suportarem tão calamitosa situação, retiram o seu time de campo e vêem escorrer como areia entre os dedos a grande chance de realizar mudanças positivas no cenário de saúde de sua localidade.

    Mas, eu acredito! Há luz no fim do túnel.

    Caro amigo, pode até parecer que assumir uma secretaria de saúde apresente mais contras do que prós. Mas é chegada a hora de contaminar as pessoas com as boas práticas, com os bons valores. As oportunidades cada dia são menores. Às vezes, os sacrifícios são muito grandes e implicam abdicar de muitas coisas interessantes e convenientes.

    Mas é preciso que alguém faça a diferença. É preciso criar referência, boas referências. Até quando aceitaremos gestores que nada fazem e só querem enriquecer aos custos do público ou utilizar a máquina como o velho trampolim para galgar vôos políticos maiores? Não agüento mais ouvir que “Fulano rouba, mas faz!”.

    Caso realmente aceite a proposta, vá com coragem e força para mudar. Não deixe abater-se ante as situações difíceis. Imponha seu ritmo de trabalho, envolva pessoas, conquiste espaço, seja persuasivo e procure apontar sempre boas alternativas e soluções para problemas que parecem invencíveis.

    Seja político e saiba distinguir os interesses. Defenda as causas da coletividade e de forma técnica, não realize trabalhos por caprichos. Não se preocupe em aparecer. Só deixa legado aqueles que realmente constroem alguma coisa e provocam grandes transformações.

    Sinta-se importante sim, mas não se esqueça de ser humilde. Trate as pessoas de forma horizontal, igual. O cargo é passageiro, mas as pessoas ficam. Não esqueça que se aprende no dia-a-dia e que o mundo dá muitas voltas.

    Falo aqui como uma pessoa que já viu algumas coisas por aí. Mas, acima de tudo, tenho certeza que transmito o desejo de tantas outras pessoas que também querem ver as coisas darem certo, seja onde for. Queremos pessoas que vistam a camisa e que defendam o SUS.

    Tenho certeza de que outros muito mais experientes podem fazer melhores relatos de dar algumas dicas. Como sempre, o espaço está aberto, façam seus comentários.

    Boa sorte e força! Estamos juntos.

    Ahhh… e se ficaram curiosos com relação a quem é o “amigo”, não se preocupem, vão ouvir falar dele, vão ouvir ele.

    Tags: , , , , ,

  • bebequercolinho

    Para começar o ano, nada melhor que refletir sobre as práticas cotidianas. Nesta época quase todos estão cheios de promessas, objetivos e planos que geralmente têm uma finalidade: tornar as pessoas e/ou as relações (pessoais e profissionais) melhores.

    Nós, profissionais de saúde, também fazemos isso. O interessante é que, no que se refere ao trabalho, as conversas entre colegas muitas vezes se repetem no seguinte ponto: sempre lembramos que a relação com o paciente e com os parceiros de equipe pode e deve ser melhorada. Mas o que fazemos durante o ano para alcançar a tão aclamada humanização da assistência?

    Em dezembro passado, participei do Encontro Macrorregional de Humanização, realizado pelo pessoal do HumanizaSUS / Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, na cidade de Jacobina. Nele pudemos discutir diversos aspectos relacionados ao assunto e ficou bastante claro que cada profissional de saúde, mesmo com todas as dificuldades do cotidiano, é capaz de mudar um pouco a sua realidade, desde que esteja atento às suas ações. É possível respeitar mais, ser mais tolerante, mais gente. Às vezes nos perdemos em meio às cobranças dos gestores, tratamos pacientes como procedimentos ou convertemos seres humanos em números. Mas quando esses erros passam a ser a regra, algo está inadequado.

    Passamos 12 meses do ano correndo de olho no relógio, preocupados com a famigerada produtividade, prazos e com o alcance das metas. Aos poucos ganhamos distância do motivo real de tudo aquilo que praticamos: o ser humano. A cobertura vacinal não é apenas um percentual. Aqueles números representam pessoas que estão protegidas de doenças imunopreveníveis. Crianças, adultos e idosos de quem estamos cuidando. Nossas ideias, relatórios, técnicas não devem nascer para o alcance de um número. Devem existir para alcançar pessoas.

    Parece bobagem, redundância, mas não é. Este exercício de “reconstrução” dos conceitos deve ser uma prática cotidiana. Talvez assim possamos resgatar parte da motivação perdida ao longo da história. Chamar o indivíduo pelo nome, escutá-lo um pouco mais em cada consulta, apertar sua mão ao se despedir… Será preciso Pós-Graduação ou alta tecnologia para isso?

    “Por humanização entendemos a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores. Os valores que norteiam essa política são a autonomia e o protagonismo dos sujeitos, a co-responsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários, a construção de redes de cooperação e a participação coletiva no processo de gestão.” (BRASIL, 2008)

    Lendo esse excerto posso suspeitar que muitos profissionais acabam reproduzindo o tratamento que recebem. É perceptível que, em geral, o trabalhador não está sendo cuidado da forma adequada: Más condições de trabalho, políticas de Saúde do Trabalhador incipientes ou não implementadas e vínculos empregatícios precários são alguns pontos que contribuem para sua insatisfação. O que dizer do Prefeito que demitiu Enfermeiras que se recusaram a dançar e rebolar sobre um trio elétrico? Não quero dizer que isto autorize o profissional a desrespeitar o paciente. Mas rompe o vínculo solidário e facilita a queda na qualidade da assistência.

    Sendo assim, fica clara a complexidade da questão, já que envolve mudanças de práticas em diversos níveis. Mas é preciso agir. Trago todos à reflexão:

    O que cada um tem feito em seu microespaço para humanizar a assistência e as relações de trabalho? Será que mudamos nossa postura em relação ao que fazíamos em janeiro do ano passado? Pensemos.

    Assim, desejo que em 2010 a nossa ação faça muitas coisas evoluírem. Que tenhamos sempre em mente o nosso compromisso com as pessoas e, consequentemente, possamos ser humanos novamente.

    humaniz

    Referência

    BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. HumanizaSUS: Documento base para gestores e trabalhadores do SUS / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. 4. ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2008. 72 p.: il. color. (Série B. Textos Básicos de Saúde)

    Tags: , ,

  • ca_mamaEspero que não me chamem de pessimista novamente, apenas estou compartilhando coisas que observo e que julgo estarem equivocadas ou nas entrelinhas. Pois bem, o blog o Médico e o Paciente estimulou a pensar sobre isso.

    Li que a Comissão de Assuntos Sociais (CAS), aprovou no dia 9 de dezembro o Projeto de Lei da Senadora Maria do Carmo Alves que inclui, além das ações já asseguradas pelo SUS com relação ao combate ao câncer de mama, a pesquisa de biomarcadores para detecção precoce do tipo de câncer que mais mata mulheres no Brasil.

    Mente curiosa a minha, busquei na internet o projeto de lei (PL nº 158 de 2009) para dar aquela olhada e fiquei um tanto perplexo com relação às justificativas apresentadas para aprovação do PL.

    Numa das suas justificações, a legisladora afirma que um dos grandes problemas com relação à alta mortalidade no país em decorrência do CA de mama é que eles são descobertos tardiamente, já em estágios III e IV – ponto para ela -, ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos.

    Continuando a leitura, afirma mais adiante que essa redução do número de casos de CA de mama nos países desenvolvidos acontece em função da evolução das áreas de genética e biologia molecular – outro ponto para ela.

    Fico pensando em como a legisladora pode estar distante da realidade brasileira, da realidade dos serviços de saúde do nosso SUS. E, diferente do que fora dito no texto do seu PL, há sim uma política para detecção precoce do CA de mama no Brasil, o problema é que ela não é aplicada como deveria, assim como tantas outras. Figura nesse cenário também o uso de uma tecnologia como estratégia da política: a realização de mamografias.

    A detecção do CA de mama apenas pelo autoexame perdeu seu papel protagonista nesse porque não consegue perceber nódulos menores de 1cm (estágio inicial), apesar de inda ser bastante importante. Por isso, uma das estratégias primordiais é a realização de mamografias anuais a partir dos 40 anos de idade. Esse é o único exame diagnóstico capaz de identificar o câncer quando ainda tem menos de 1cm.

    Porém, não temos mamógrafos para atender toda população feminina do país que demanda aos serviços. Não temos profissionais capacitados para realizar os procedimentos mesmo quando existem máquinas.  Pesquisa do INCA aponta que 77% dos exames foram rejeitados por problemas técnicos (qualidade da imagem ruim, posicionamento incorreto do paciente e uso errado dos aparelhos). Geraram até realização de biopsias equivocadas. O cenário é aterrador. (ver em Ser Mulher Inteligente)

    E vejam, vale informá-los que até esse ano, as mamografias anuais só eram realizadas em mulheres a partir dos 50 anos. Isso foi alterado pela Lei 11.664/2008 que entrou em vigor a partir de abril de 2009 e passou a contemplar as mulheres a partir dos 40 anos. Pensem então no quanto esse volume aumentou e ainda aumentará.

    Nessa perspectiva, as grandes perguntas são: como vamos inserir novas tecnologias no sistema sem que antes funcionem as já existentes? Como inserir tecnologias de base genética e molecular no serviço e não contemplar toda população? Onde ficam os princípios da universalidade e integralidade das ações, pilares do SUS?

    Fico com a impressão de que há o deslumbramento pelo novo, pelo moderno, por fazer elevar o patamar dos serviços do país com a inserção de poderosas tecnologias, sem nem pensar em como ficará a conta e como as pessoas terão acesso a isso. Lembro que coisas mais simples (supostamente!), como fazer um raio-x ou um exame laboratorial, ganham em complexidade a depender da região e do município em foco. Avaliem então um exame genético para identificação de biomarcadores.

    (Agora sarcástico…) Mas não se preocupem, essa é fácil, fácil de resolver! Vamos tornar o país mais desenvolvido, pois assim reduziremos os casos de câncer no Brasil. Isso está dito no PL!. Basta fazermos com que aquela mulher pobre, favelada, marginalizada, faça todo ano uma mamografia e um exame genético para detecção precoce de casos, que segundo o texto acomete mais os genes BRCA1 e BRCA2 (pegou essa????).

    Fantástico essa hein? Além de reduzirmos o número de casos ainda elevaríamos o Brasil ao tão sonhado patamar de país desenvolvido. São de leis “concretas” como essa que o país está carente.

    E sim, Senadora! Concordo com seu texto quando diz que “a genética promete ser o campo de batalha em que essas doenças encontrarão um inimigo capaz de derrotá-las.” Também sou a favor de incorporação de novas tecnologias ao sistema (sempre!), especialmente as de base genética. Apenas identifico que esse ainda é um cenário para os verdadeiros países desenvolvidos, com realidades bastante distintas das nossas, mas que serviram de base para a fundamentação das suas argumentações e justificativas.

    Não somos um país desenvolvido, Senadora. Precisamos, antes de tudo, dar conta do dever de casa. Tem muita coisa pendente, por fazer, por ser aplicada. Vamos aumentar o acesso das mulheres as mamografias e dar a qualidade necessária para as análises serem realizadas com firmeza, com clareza. Creio que assim, os pontos, vão para as usuárias do SUS, para população do Brasil, país em desenvolvimento.

    Tags: , , , , , , , , ,

  • educacao222Vamos estabelecer essa afirmativa do título como condição fundamental para que possamos prosseguir na discussão.  Não é a mesma coisa! Muitas pessoas teimam em realizar e classificar as atividades educativas equivocadamente, até como sinônimos.  Uns chamam de continuada, outros de permanente, outros até inventam novas modalidades de classificação das atividades, mas, na prática, poucos utilizam a terminologia correta, e o mais importante, poucos atendem realmente ao que a perspectiva educacional de cada situação preconiza.

    Isso acontece muito no ambiente dos serviços públicos de saúde e instituições hospitalares que desejam instituir um processo educativo contínuo, na maioria das vezes visando a atualização contínua do seu quadro de seus profissionais. Outros implementam os processos educativos em saúde na perspectiva de identificar e resolver problemas do espaço em que estão inseridos. Agora então, vamos nos situar para entender o contexto.

    A regulamentação do SUS pela Lei 8080/90 tornou imprescindível e premente a organização de processos educativos para a sua implantação, implementação e formação do quadro de profissionais, tarefa essa árdua e destinada à responsabilidade dos municípios. Essa construção deriva dos movimentos reformistas onde os planejadores e estudiosos da época vislumbravam a necessidade de formar profissionais orientados na busca de soluções para os problemas de saúde do país coletivamente.

    Saliento que existem várias conceituações e autores que abordam o tema. Tentarei trazer algumas concepções mais usadas nesse campo para procedermos com as definições.

    Da organização das práticas educativas logo surgiu o formato de Educação em Serviço, modalidade muito utilizada para capacitação de profissionais atendendo a interesses diretos da instituição, com o interesse dos profissionais em segundo plano. Verdadeiros treinamentos com privilégio do aspecto técnico e das habilidades.

    Já em seguida surge a modalidade da Educação Continuada para capacitação dos profissionais já inseridos nos serviços. Não quer dizer que é algo perene, contínuo como sugere o nome, mas algo que continua a acontecer após a formação dos sujeitos. Difere da anterior no aspecto de privilegiar o profissional e não apenas interesses institucionais. A Educação continuada deve promover oportunidades de desenvolvimento do profissional e de suas capacidades para atuação de forma individual e/ou coletiva. A idéia é que benefícios gerados de forma individual tornam essas pessoas mais satisfeitas, motivadas e com mais conhecimentos que retornam também para instituição na qual ele está inserido.

    Eis que finalmente surge a perspectiva da Educação Permanente em Saúde. Essa é uma modalidade que emana do seio dos processos de trabalho e objetiva resolver problemas identificados de dentro desse processo com o propósito de melhorar a qualidade de vida em todas as dimensões. É algo dinâmico e que surge não para preencher lacunas do processo de formação dos profissionais mas para ocupar os espaços. A Educação permanente permite o encontro do mundo em formação com o mundo do trabalho e a qualificação técnico-científica é apenas um dos aspectos das transformações das práticas e não o seu foco central. Não há espaço nessa perspectiva para ações educativas verticalizadas e fora de contexto. As demandas emanam do processo de trabalho e do espaço em que os profissionais e membros das comunidades estão inseridos.

    São perceptíveis as diferenças entre as propostas. A educação em saúde é algo muito mais global e interessado na mudança e transformação de práticas. É claro que ela engloba atividades de cunho técnico-científico como acontece na educação continuada, mas há o compromisso de mudança com o mundo e não apenas a transmissão de saberes e conhecimentos de forma individualizada. Aqui impera os interesses do individual e do coletivo.

    Abaixo, apresento um quadro comparativo entre a Educação Continuada e a Educação Permanente e que permite melhor observar algumas distinções conceituais:

    tabela_educacao_comparacao

    As diferenças de suas concepções são fáceis de sentir, porém a formatação disso causa muita confusão na prática. Matematicamente falando, podemos dizer que a Educação continuada está contida na Educação permanente, assim como a Educação em serviço por sua vez está contida na Educação Continuada. Num diagrama, as coisas poderiam ser representadas da seguinte forma:

    diagrama_educacao_permanente

    A Educação Permanente hoje no Brasil já figura com uma política bem definida (Portaria Nº 198/GM/MS de 13 de fevereiro de 2004) e a sua gestão e deverá ser feita pelos Pólos de Educação Permanente em Saúde que funcionarão como dispositivos do SUS para a promoção de mudanças e fará as articulações interinstitucionais necessárias para sua viabilização.

    Espero ter podido colaborar com algumas informações para que equívocos possam ser evitados. Agradeço aos colegas de trabalho e aos meus alunos que motivaram a discussão.

    Sugestões para aprofundar o tema:

    - Política de educação e desenvolvimento para o SUS: caminhos para a educação permanente em saúde: pólos de educação permanente em saúde do Ministério da Saúde/Brasil – 2004

    - Educação em serviço, educação continuada , educação permanente em saúde: sinônimos ou diferentes concepções? – Beatriz Francisco Farah / E-mail:biafarah@nates.ufjf.br

    Tags: , , , , , , , ,

  • logoFrequentemente descobrimos manchetes, ouvimos reclamações, lemos denúncias sobre o mau funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
    Filas longas para atendimentos, ausência de profissionais capacitados, baixa oferta de exames e procedimentos, manifestações trabalhistas com o objetivo de melhorar as condições dos serviços, etc.
    A mídia sensacionalista se aproveita destas mazelas e faz o maior barulho pelos canais de comunicação com a clara missão de evidenciar os problemas do processo sob o falso manto da “proteção social”.
    Um exemplo recente disto foi durante a pandemia da gripe A [H1N1]. Tivemos desde notícias denunciando a desestrutura dos serviços até insinuações de subnotificação proposital dos casos pelo Ministério da Saúde.
    No entanto, experiências exitosas do SUS não são tão “propagandeadas”. Os resultados positivos do Programa Nacional de Imunização (vacinas), do combate à AIDS, dos Serviços de Triagem Neonatal (Teste do Pezinho), dos bancos de sangue, dos transplantes e do SAMU, por exemplo, têm pouca visibilidade.

    A pergunta que eu faço a vocês é:

    Se o nosso SUS consegue funcionar bem em algumas áreas, por que erra tanto em outras?

    Sabemos que, no Brasil, o direito à saúde é de todos. Mas a maior parte dos pacientes atendidos no sistema público pertence às classes sociais menos favorecidas financeiramente. Daí tem gente que acha que o SUS é para pobres. Idiotice.

    Se você encontrar o Presidente Lula numa praça é capaz de reconhecê-lo. Mas você identificaria prontamente um Juiz do Supremo Tribunal Federal caso o encontrasse? Eu não. Mas sei que ele tem grana.
    Ok. Vamos supor que um iminente Juiz estava de férias na Bahia. Usando bermuda e camiseta, curtia o melhor verão de sua vida em Ilhéus. De repente, por um descuido, foi atropelado. Vendo-o ferido e inconsciente, os transeuntes já sabiam o que fazer: chamaram o SAMU. Rapidamente o Juiz foi levado à Emergência do Hospital Público mais próximo. Atendido, recuperou-se bem e já estava fora de perigo quando foi transferido ao hospital privado que seu plano de saúde particular indicou. Ele não era pobre e utilizou o SUS.

    Suposição dois: Numa cidade bem longe dali, noutro estado, um grande empresário extremamente rico adoeceu (percebam que não é o Juiz!). Visitou os melhores médicos da região, sempre pagando altas quantias em clínicas particulares porque não precisava usar a “medicina dos pobres”. Diagnóstico nosológico: tuberculose pulmonar. Sabem onde ele precisou ser acompanhado para receber os medicamentos? Numa unidade de PSF – SUS. Mas não acabou por aí. Os profissionais da Equipe de Saúde da Família prosseguiram a investigação e descobriram que além de tuberculose ele tinha AIDS. E sabem quem disponibilizou o tratamento contra a AIDS? Isso mesmo. O SUS.

    Dá pra perceber que as pessoas mais abastadas tendem a usar o SUS apenas em situações mais caras (quando seus planos privados caem fora da brincadeira), quando não podem escolher outro tipo de assistência ou quando não há outra fonte para aquele suprimento/serviço. Nas consultas de rotina, elas se orgulham em dizer que pagaram caro nas clínicas particulares ou aos planos de saúde.

    O pobre, não. O brasileiro pobre usa o SUS de A a Z. Usa o que ele tem e fica na falta quando o SUS não tem. O problema é que o pobre, em termos gerais, não exige e não sabe reclamar. Aceita quase tudo como obra de caridade. Falta-lhe o conhecimento dos próprios direitos. Não por ser pobre, em si. Mas porque não teve uma educação formal de qualidade. E é nisso que pesa a diferenciação das coisas.

    Quando um usuário do SUS que tem boa escolaridade procura uma unidade pública, seja qual for o motivo, e percebe que não foi bem atendido ou identifica algo fora dos padrões mínimos de segurança ou higiene, reclama. Reclama e exige. E tem que ser assim. Não estou dizendo que é permitido insultar o recepcionista ou o Auxiliar de Enfermagem com voz em volume alto citando a famigerada frase: “Nada público funciona!”. Não é isso que estou pedindo.
    É preciso procurar o responsável pela unidade assim como se procura o gerente de uma loja quando seu celular vem com defeito. Comunica-se o problema e buscam-se soluções. Se possível, por escrito. Este documento iniciará um efeito cascata: o profissional pressionado na assistência deverá pressionar seu superior hierárquico. Este, por sua vez, ou resolve o caso ou pressiona o gestor. E nesta sequência, alguma coisa acaba mudando: Ou o problema se resolve ou fica evidente a incompetência do setor responsável. Simples assim.

    Em 20 anos de SUS, observamos inúmeros avanços. Observamos também que quanto mais avançamos, mais descobrimos demandas a serem atendidas. Faz parte do jogo.
    E nesse jogo, reivindicar é condição indispensável para a evolução. Se o rico (mais esclarecido) usa o SUS na hora de uma emergência, no tratamento contra AIDS e no transplante de órgãos, é esperado que estas áreas se desenvolvam melhor porque os investimentos dos governantes não seguem a lógica da equidade: A melhoria dos setores é diretamente proporcional ao poder aquisitivo das pessoas que os utilizam.

    Se o rico usasse plenamente a unidade básica, veríamos mais qualidade nela também. Como os ricos não descerão de seus pedestais, qual a estratégia para fortalecer a atenção primária? Municiar os usuários do SUS (principalmente os menos favorecidos) com conhecimentos sobre legislação sanitária, instrumentalizando os Conselhos de Saúde.

    Se a questão é aprender a cobrar, controle social neles!

    Tags: , ,

  • Sem categoria No Comments

    Meses de dezembro a março: esse é o grande período de concentração de pessoas em consultórios e clínicas de saúde. As pessoas aproveitam o seu tempo livre nas férias para realizar o que chamam de check-up, terminologia americana que fora utilizada nos anos 50 num dos programas espaciais ianque, em que os astronautas tinham de se submeter a uma bateria de exames para evitar complicações durante o lançamento e na sua estadia fora dos confins do nosso planeta.

    Nos anos 80, a idéia dos check-ups ganha força através do lobby realizado pelas empresas da saúde. Vislumbraram na época a grande oportunidade de fazer mercado com a necessidade de saúde da população e passaram a trabalhar então sob duas frentes: no desenvolvimento de tecnologias diagnósticas cada vez mais especializadas e menos agressivas e invasivas, e do outro lado, a difundir a necessidade de realização de exames periodicamente, como estratégia de prevenção e promoção da saúde, sobretudo na classe médica e nos serviços privados de saúde.

    Como aqui no Brasil pouco se cria e muito se copia, e some a isso o encantamento da população às tendências dos grandes centros mundiais, nosso país não poderia ficar de fora dessa onda mercantilista da saúde no cenário mundial. Eis que os nossos compraram e também difundiram a idéia da realização dos check-ups como uma das estratégias mais interessantes para realizar prevenção em saúde, claramente uma visão do modelo médico privatista.

    Os brasileiros, indepente da sua classe social e da acessibilidade que possuem a bens e serviços, passam a frequentar clínicas e unidades de saúde direcionando e até exigindo dos profissionais a bateria de exames que dá corpo aos check-ups. Algumas pessoas passaram inclusive a rotular negativamente profissionais médicos que, ao final da consulta, não lhes forneciam as tão desejadas “guias para realização de exames”.

    Fala-se até em check-ups básicos, completos e até personalizados.

    Para uns, mais abastados e com disponibilidade de planos de saúde de boas coberturas, a realização dos exames flui de forma simples e provavelmente sanará as duvidas até então instaladas quanto ao atual quadro de saúde desses indivíduos. Porém, para outros, que representam a maior parcela da população e não possuem recursos e acesso a serviços com tecnoligias de ponta, terminam por cobrar do Sistema Único de Saúde uma resposta semelhante a vivida nos serviços privados, posturas totalmente avessas à logica do sistema e a forma como ele é pensado, gerido e executado.

    Os prórpios profissionais, por vezes descontentes com a falta de suporte e de capacidade instalada para execução de suas atividades, por vezes boicotam o sistema incluindo a lógica dos check-ups numa rede em que se preconiza a adscrição de clientela, conhecimento do território e atuação in loco, correspondente às necessidades de saúde conforme elas se apresentam. Isso está muito claro e bem formatado nos objetivos do programa de saúde da família, por exemplo. O grande equívoco é a população continuar sem entender como essa rede funciona e manter profissionais que alimentam uma lógica organizacional paralela e concorrente aos princípios do SUS.

    Dessa forma, o SUS de qualque lugar não consegue dar conta às demandas. São desferidas solicitações de exames indiscriminadamente, tudo porque “usuário satisfeito é aquele que sai com sual solicitação de exame nas mãos”. Para queixas de dores de cabeça, tomografias, dores na coluna, ressonâncias, queixas de dores articulares, raios-x, dores estomacais, endoscopias e quanto mais complexo o procedimento, melhor. Por vezes, medidas sanitárias e de educação em saúde são suficientes e mais direcionadas para resolução de problemas dos indivíduos de várias comunidades, mas…

    É duro ver pessoas carentes terem que se expor e até se humilhar, procurando meios os mais diversos possíveis para realização de exames e procedimentos que atendem à lógica dos check-ups, mas não levam em conta o social e as prioridades dos indivíduos e de uma população.
    Por isso que um dos princípios do SUS é a equidade e é realmente necessário tratar de forma desigual os desiguais, direcionando mais atenção e suporte para aqueles que têm mais necessidades.

    Tenho a convicção de que fazer check-up é ótimo. A possibilidade de se monitorar ou de descobrir alguma patologia ainda em estágio inicial traz alento e conforto àqueles que têm essa possibilidade. Mas, também tenho a certeza que essa é uma linha de pensamento que vai de encontro às prerrogativas do SUS e não traz possibilidade de acesso a todos.

    Sob pena de não ver seus programas sucumbirem diante dessa lógica de mercado, aqueles que fazem o Sistema Único de Saúde precisam oferecer serviços mais qualificados aos seus usuários, necessita que estes acreditem no potencial de suas ações e que invistam nos profissionais, para ao inves de serem concorrentes, serem parceiros dessa proposta. Caso contrário, prevalecerá a lógica do mercado, prevalecerá a lógica dos check-ups nos serviços públicos de saúde e constituirá sempre uma grande barreira a consolidação do SUS.

    Tags: , ,

  • Pois é… matéria publicada no portal G1 no dia 14 de outubro trazia como manchete o Brasil como grande exemplo a ser seguido na atenção básica de saúde.

    Lendo a matéria, fica claro que o relatório elaborado pela Organização Mundial de Saúde, intitulado World Health Statistics 2008, é muito mais uma tentativa de sugerir aos países do globo a instituição de políticas diferenciadas de atenção à saúde, sobretudo aos países ricos, em que o nível de especialização é tal qual que encarece os serviços e impedem um grande quantitativo populacional de ter acesso aos mesmos, dado a incompatibilidade financeira que nesse momento se instala e dos modelos então adotados em cada espaço, com grande força dos serviços particulares/privados.

    Nessa perspectiva, aí sim o Brasil figura com modelos alternativos de organização dos serviços de saúde, frutos inclusive das incessantes lutas dos movimentos de reforma sanitária que se inicaram no fim da dédaca de 70 e inico da década de 80, no qual prevê o fortalecimento das ações primárias de saúde como a grande saída para elevar o nível de saúde populacional e evitar grandes custos com procedimentos e recursos de maior complexidade, boa parte deles evitáveis com o fortalecimento desses serviços de atenção básica.

    O Brasil traz hoje emplacado na política pública governamental a estratégia do Saúde da Família como alternativa de dinamizar o sistema, potencializar os cuidados primários de saúde, evitar complicações de agravos, trazer os serviços para dentro das entranhas das comunidades e com ela vivenciar os problemas e buscar sempre soluções, articuladas com os demais serviços existentes.

    Maravilhosa seriam essas premissas e objetivos do fortalecimento da atenção básica se não estivéssemos tão longe da qualidade e dos resultados satisfatórios que foram destacados no relatório da OMS.

    Os princípios que fundamentam o SUS da equidade, hierarquização e descentralização dos serviços, integralidade das ações, controle e participação social e especialmente o fundamento da universalização do acesso aos serviços – que é o grande foco da discussão no relatório da OMS para ser “difundido” entre os demais países do globo – foram muitíssimo bem elaborados o que torna a legislação de saúde brasileira uma das mais avançadas do mundo. Mas, não fugindo à regra como acontece sempre no Brasil, há um grande abismo entre aquilo que é proposto legalmente e a sua concretização prática, o que torna falacioso alguns destaques do relatório da OMS que exaltaram a qualidade dos serviços de atenção básica no cenário nacional.

    Tenho a convicção de que muito já se caminhou na implementação de serviços, mas é interessante perceber que já passados 20 anos de constituição e da elaboração e planejamento do SUS, ainda hoje falamos em construção do sistema e não apenas na sua consolidação.

    Sendo assim, penso que muitas idéias e fundamentações das políticas públicas de saúde do Brasil possam ser utilizadas como ferramentas de apoio para a construção de sistemas de saúde mais igualitários pelo mundo afora, mas, lembrem que por aqui ainda há muito o que se avançar e construir. O modelo daqui pode não ser o mais viável para os países com condições sócio-econômicas e interesses diferentes dos nossos e o Brasil não pode ser nunca citado como exemplo de um país que realmente faz valer a sua legislação, seja ela em qual área for.

    Sabe a história do faça o que eu digo, mas não façam o que eu faço…

    (*) Para ver o relatório da OMS World Health Statistics 2008 clique aqui - ops!, só tem em versão inglês

    Tags:

  • Sem categoria No Comments

    Na semana passada, vi alguma pessoas aparecerem na televisão reclamando dos recursos financeiros estaduais que são repassados para o combate e controle da dengue, insuficientes, segundo os então reclamantes. Todos eles funcionários da saúde de um município e que lidam diretamente com o agravo em questão. Também trazia associados aos seus discursos, naquele momento, o descontentamento pelas suas atuais condições de trabalho, pela precarização dos seus vínculos trabalhistas e as veementes cobranças que têm sofrido nos últimos dias em função do crescente número de casos de dengue na localidade em questão.

    Ora, até aí nenhuma novidade. É sabido por todo povo brasileiro que os recursos financeiros repassados pelas instâncias federal e estadual para os municípios é insuficiente para o custeio das ações em saúde, o que demanda grandes investimentos municipais para garantir um mínimo de atenção à saúde aos seus munícipes.

    Entretanto, no momento em que assistia o discurso daquele trabalhador de saúde e a forma tão eloqüente com que abordava o assunto em pauta, resolvi então assumir aqui uma postura diferenciada da sempre marcada defesa aos municípios no que tange ao financiamento do SUS.
    Revolta-me quando vejo pessoas irem aos meios de comunicação e tratar a temática do financiamento como se fosse algo alheio à sua responsabilidade como cidadão ou como se fosse competência única e exclusiva das demais instâncias federadas, deixando os municípios numa posição “confortável” de mártires, grandes vítimas dos descalabros sofridos pelo insuficiente aporte financeiro que lhes são destinados!!! Ohhhh!!!

    Aqui vale lembrar que a partir do momento em que se iniciaram os processos de descentralização dos poderes e recursos, o grande movimento de municipalização da saúde, os municípios deixaram de ser meros operadores do sistema e passaram a assumir papel protagonista na gestão de saúde de suas localidades – pelo menos é que se preconiza. Isso implica na elevação da capacidade de gestão local, o planejamento e execução de atividades mais específicas e direcionadas às distintas realidades e também O FINANCIAMENTO MUNICIAL das ações e serviços de sua localidade.

    O grande nó está justamente aí! Os municípios brasileiros, forma geral, ainda não incorporaram a perspectiva de que as ações em saúde têm financiamento tripartite: federal, estadual e municipal! Quase todos os programas e serviços demandam CONTRAPARTIDA FINANCEIRA MUNICIPAL, que apesar de ser a menor das parcelas do montante financeiro total, ainda sim não são bem vistas aos olhos dos gestores municipais.

    Na verdade, o que os gestores municipais querem é a manutenção da sua capacidade de gestão garantida pela municipalização, mas, por outro lado, desejam que todas as ações e serviços sejam custeados em 100% com dinheiro vindo dos cofres da união e Estado, sem que os municípios desembolsem um vintém sequer. Dessa forma, todos irão querer serem gestores, pois ser a pedra é muito mais interessante que ser a vidraça.

    Trago toda essa contextualização para afirmar que a dengue ou quaisquer outros agravos em saúde não podem ser combatidos apenas pelas instâncias federadas superiores e que os municípios também tem que arcar com as contas que lhes são de competência. É por essas e outras que até hoje no Brasil luta-se pela regulamentação da EC 29 para garantir o repasse mínimo de recursos da arrecadação municipal para a pasta da saúde.
    Entendo situação de alguns municípios que possuem indicadores desfavoráveis e não conseguem arrecadar o suficiente para custear algumas ações e serviços que lhes são de competência, ao passo que também entendo que esses devam ser vistos e analisados sob primas diferenciados, mas isso não é uma regra dos municípios brasileiros.

    As ações de saúde devem ser vistas e tratadas com as prioridades que elas demandam e o custeio do serviços deve a todo tempo ser negociado e discutido, mas nunca abandonado pelo apontamento dos possíveis culpados, pois, na infeliz possibilidade de não identificá-los, poderemos de forma muito mais fácil vislumbrar os que sofrem com esses desmandos: todo o povo brasileiro!

    Precisa então dizer para quem sobra a conta?

    (*) Para saber mais sobre o Financiamento do SUS veja aqui ou aqui
    (**) Um grande abraço para a turma da pós de Saúde Coletiva – Sanitarista que motivou esse debate

    Tags: ,

   

Recent Posts

Recent Comments

Social Widgets powered by AB-WebLog.com.